Algumas figuras políticas o tempo reduz a um rótulo. Direita. Esquerda. Conservador. Progressista. Como se a história pudesse ser dobrada à simplicidade de uma palavra.
Leonel Brizola, entretanto, parece resistir a essa geometria apressada.
Pertenceu inequivocamente à esquerda brasileira. Sua filiação ao antigo trabalhismo, a herança de Vargas, a defesa da justiça social, da educação pública e da soberania nacional o situam com clareza nesse campo. Foi herdeiro de uma tradição em que o Estado não surgia como mero espectador, mas como instrumento de transformação histórica.
Contudo, há personagens cuja densidade ultrapassa o mapa das classificações. Leonel Brizola foi, antes de tudo, um homem de Estado no sentido antigo da expressão: não apenas um gestor do presente, mas alguém movido por uma ideia de país. Seu nome traz a memória da Campanha da Legalidade, quando, diante da ameaça à posse de João Goulart, fez da Constituição não um texto inerte, mas uma trincheira moral. Houve, naquele gesto, algo mais do que posicionamento ideológico: houve a defesa quase dramática da própria ideia de ordem institucional.
Talvez seja por isso que até setores da direita, em determinados momentos, lhe reservaram respeito. Não por afinidade doutrinária, mas pelo reconhecimento de uma grandeza política hoje rara: convicção, coragem e a recusa da tibieza.
Leonel Brizola pertencia a uma linhagem de homens públicos para os quais a política ainda conservava uma dimensão épica. A palavra não era mera técnica de comunicação; era gesto, combate, convocação. Sua oratória possuía o timbre dos que falam não apenas para persuadir, mas para inscrever uma visão no imaginário coletivo.
Há, em sua trajetória, uma tensão filosófica interessante. Era homem de esquerda, mas também nacionalista. Defendia direitos sociais, porém associava-os à soberania nacional e ao desenvolvimento interno. Em torno de seu nome, o trabalhismo assumiu contornos quase civilizatórios: escola pública, indústria nacional, dignidade do trabalho, proteção do povo e independência do país diante de forças externas.
Talvez resida aí a razão de sua permanência simbólica.
A política contemporânea habituou-se à fragmentação das identidades ideológicas; Brizola, ao contrário, parecia conceber o país como uma totalidade histórica.
No Rio de Janeiro, os CIEPs permanecem como vestígio concreto dessa visão. Não eram apenas edifícios escolares, mas uma ideia de futuro materializada em concreto, pedagogia e utopia.
E talvez seja precisamente isso que distingue certos homens públicos dos demais: deixam de ser apenas nomes para se tornarem problema filosófico.
Não se pergunta apenas de que lado estavam, mas, que país imaginavam. E, diante de algumas figuras, a resposta ainda ecoa como um desafio ao presente.
Rio de Janeiro, 28 de abril de 2926 — 14h55