Vez ou outra, os meus pensamentos convocam repreensão. Entre esses, a ilusão ocupa lugar persistente.
Asseguro, com ênfase, que a desilusão não guarda natureza nociva; a ilusão sim. Essa afirmação exige interpretação esmerada, porque não nasce de impulso, mas de um exame prolongado do modo como a percepção se forma.
Talvez a fraude mais densa não provenha de fora. Há ilusões que se engendram no interior do espírito, como se a consciência, em pacto com o próprio conforto e com receios antigos, urdísse uma tapeçaria de aparências delicadas. Julga-se haver nitidez, quando apenas se frequenta o reflexo do desejo.
Nem toda ilusão é neutra. Algumas sustentam pequenos abrigos psíquicos: amortecem o impacto do real, retardam a queda brusca do sentido, preservam uma continuidade possível do viver. Ainda assim, o preço costuma ser alto, porque aquilo que protege em excesso muitas vezes deforma.
Ratifico que não desejo a ilusão dos sentidos e muito menos da alma ou do espírito, ainda que a desilusão imponha dor. Para mim, a lucidez mais profunda não se inscreve no campo da busca pelo que conforta, mas na captação sensível do que desafia. Romper a ilusão não é vencer um adversário, mas desfazer a tirania das superfícies.
Prefiro manter os olhos livres para a verdade.
Nem sempre o véu recobre o mundo. Recobre o olhar.
Rio de Janeiro, 28 de abril de 2026 —15h58