Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Textos

O revólver

 

Os dois irmãos, desde a mais tenra idade, eram vistos na família como os pequenos artistas. Não havia nisso apenas um elogio doméstico, mas uma espécie de sentença antecipada, como se a sensibilidade os colocasse fora do comum e, portanto, sob observação permanente.

 

Lara nutria inclinação profunda para a escrita, a música e o desenho, convertendo experiências em palavras ou traços carregados de urgência silenciosa. Cauã também possuía dons artísticos, mas o mais impressionante era a música. Diante do piano, transformava-se: concentrado, absorto, como se cada nota abrisse passagem para um território anterior à própria consciência. Possuía ouvido absoluto e uma voz rara, embora quase nunca a usasse em público. Cantava apenas no banheiro, convencido de que ninguém o escutava, como se a própria voz pertencesse a um domínio secreto, ainda não autorizado pelo mundo.

 

Na década de 70, Maia, Lara e Cauã viviam em São Paulo para cursar as respectivas formações universitárias. Os pais, Frederico e Leandra, junto aos outros filhos, permaneciam numa pequena cidade do interior. A vida não se apresentava confortável, mas tampouco escandalosamente difícil: era feita de limitações discretas, sustentadas por trabalho e obstinação, como tantas vidas silenciosas que não chegam a se nomear como drama.

 

Quando a mãe anunciou através de uma carta escrita à mão, que seria impossível sustentar os filhos como antes, Lara procurou emprego.

 

Maia aproximava-se da conclusão do curso de medicina; interrompê-lo seria um desperdício, e Lara compreendia isso sem ressentimento. Havia, entre os irmãos, uma espécie de solidariedade sem alarde, sustentada mais por lucidez do que por romantismo.

 

Os três jovens eram muito belos, mas Lara e Cauã chamavam muita atenção. Essa realidade, em vez de proteção, produzia ruídos, e murmúrios atravessavam a cidade pequena, sempre inclinada a transformar diferença em suspeita:

 

— Tão bonitos… não devem estar fazendo coisa boa na cidade grande.

 

Sob o estigma da beleza inaceitável ao lado da inteligência, os irmãos ingressaram num curso de engenharia, como quem tenta fixar um contorno para o próprio destino.

 

Foi nesse período que ocorreu o episódio que não se dissiparia da memória.

 

Em uma das visitas à cidade natal, o pai chamou os dois irmãos. A voz soou seca, quase impessoal. A mãe silenciou.

 

Os jovens entraram no Fusca amarelo, sem escolha, e foram conduzidos ao banco traseiro.

 

Frederico deu a partida. O carro avançou pelas ruas com uma lentidão que não era técnica, mas emocional. Dentro do veículo, o silêncio não era ausência de fala — era presença espessa, quase física.

 

Nada era dito. E, por isso mesmo, tudo parecia dito.

 

A cidade passou através das janelas do carro. O asfalto cedeu lugar à estrada de terra, depois aos campos abertos, à vegetação rarefeita, ao espaço sem testemunhas. Não havia casas, não havia passagem, apenas a extensão do mundo sem interrupção.

 

Frederico parou o carro e desligou o motor. Permaneceu imóvel por alguns segundos. Em seguida, abriu o porta-luvas e retirou um revólver. O gesto não veio acompanhado de hesitação visível. O metal apareceu como se já estivesse ali desde o início da viagem, como se fosse apenas a confirmação material de uma decisão anterior à linguagem.

 

Apontou a arma para os filhos e afirmou que os mataria ali mesmo. A explicação antecedeu qualquer pergunta: a cidade comentava que os filhos haviam se tornado “hippies”. 

 

Naquele contexto, a palavra não descrevia; condenava. Era um veredito social: desvio, desordem, dissolução moral. Drogas, abandono, escândalo — tudo aquilo que uma pequena comunidade precisava imaginar para conter aquilo que não compreendia.

 

Frederico vociferou que os filhos eram maconheiros. Repetiu o que vinha sendo dito por outros, como se apenas desse continuidade a uma narrativa plural.

 

Lara tentou explicar-se. Falou de trabalho, de estudo, da distância entre rumor e realidade. As palavras não encontravam abrigo. Perdiam-se no interior fechado do carro, sem alcance, sem retorno.

 

A violência, naquele momento, não era apenas voz. Era estrutura.

 

Frederico elevava a voz. Permanecia firme. As acusações acumulavam-se como se tivessem sido armazenadas durante meses, talvez anos, e aguardassem apenas um cenário sem fuga.

 

Foi então que Cauã falou. Sua voz não surgiu como defesa, mas como ruptura decisiva e melancólica:

 

— Mata-me!

 

O silêncio que se seguiu não pertencia ao tempo comum; era atravessado por uma condição humana arquetípica, despertada sob pressão extrema.

 

— Mata-me agora! É um favor que o senhor me faz. Não gosto mesmo de viver e não suporto mais ser acusado pelo que não fiz.

 

Frederico não respondeu.

 

Cauã continuou:

 

— Mata-me! Não faça nada com a Lara, mas eu quero morrer. Não sou feliz.

 

Dentro do carro parado na estrada de terra, algo se deslocou sem ruído. Lara recolheu aquele instante de forma indelével, nas cavidades mentais. Não apenas as palavras, mas a maneira como a realidade parecia ter perdido a estabilidade mínima.

 

Durante um segundo, ocorreu-lhe o pensamento que a própria consciência recusaria mais tarde: a hipótese de que o pai, naquele estado, pudesse realmente matar. A epígrafe mental era tão somente o medo ancestral da morte.

 

Protegeu o irmão com o próprio corpo.

 

— Cauã, não! Não fizemos nada de errado. Se o senhor não acreditar, mate a mim.

 

Havia ali uma adesão absoluta entre medo e amor, como se ambos deixassem de ser opostos e se tornassem uma única matéria. Nada naquele percurso anterior preparava o corpo para a proximidade concreta da irreversibilidade.

 

Foi então que algo se rompeu em Frederico. Não foi um gesto de compaixão. Não foi redenção. Foi interrupção.

 

O silêncio retornou. O revólver desapareceu no porta-luvas. O motor do carro foi religado. O carro voltou a andar.

 

Nenhuma palavra acompanhou o retorno. Duas mãos entrelaçadas. Almas unidas.

 

Em casa, Leandra recebeu os filhos com um olhar inexplicável, que apenas se fixou em cada um. Por frações de segundos, Lara reconheceu ali algo que não sabia nomear: conhecimento sem declaração, presença sem explicação.

 

No dia seguinte, a irmandade retornou para São Paulo.

 

Nada foi esclarecido, mas algo morreu dentro deles. Para sempre.

 

O episódio permaneceu suspenso como matéria sem conclusão, deslocado para uma zona em que a linguagem nunca alcança a verdade.

 

Anos depois, Lara e Cauã ainda tentaram reconstruir aquele dia. Não para compreendê-lo — mas para verificar se realmente acontecera da forma como a memória insistia em devolver.

 

Talvez o pai não quisesse matar. Talvez quisesse apenas uma confissão. Talvez a cidade inteira tivesse decidido aquela morte antes dele. E talvez, naquele carro, o que esteve em jogo não tenha sido apenas um conflito familiar, mas a forma como uma sociedade pequena fabrica seus próprios monstros para sustentar a ideia de ordem. Preconceito irresponsável. Inveja. Maldade.

 

O revólver, no fim, não permaneceu como arma, mas como pergunta sem resposta.

 

Rio de Janeiro, 28 de março de 2026 — 5h35

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 27/04/2026
Alterado em 27/04/2026
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