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A “tia do Zap” não designa apenas uma tia de família. Tornou-se personagem emblemática do nosso tempo, figura quase folclórica dos grupos de WhatsApp, onde flores matinais, orações, mensagens de afeto e votos de paz convivem, sem qualquer transição moral, com vídeos alarmistas, áudios sem autoria, notícias sem fonte e narrativas cuidadosamente moldadas para produzir medo, indignação e adesão imediata.
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O drama não está na idade, mas na engenharia contemporânea da crença, na relação com a informação — e, mais profundamente, com a própria ideia de verdade.
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A mentira contemporânea aprendeu a circular pelos afetos. Veste a forma do convincente com assombrosa habilidade. Não chega pela voz solene das instituições, mas pela mensagem de alguém próximo — uma irmã, uma prima, uma amiga antiga, alguém cuja intimidade empresta credibilidade ao que, em outra circunstância, talvez despertasse suspeita.
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E é precisamente por isso que adquire a aparência sedutora do real.
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O mais inquietante é que, por trás do encaminhamento apressado, nem sempre há malícia. Muitas vezes, pulsa um desejo sincero de alertar, proteger, participar da vida pública, defender uma ideia de país e preservar aquilo que se julga ameaçado.
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A tragédia do nosso tempo talvez resida exatamente aí: a falsidade não bate à porta como estranha — entra em casa pela porta da confiança, senta-se à mesa da família e fala com a voz de quem amamos.
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Mais do que caricatura, a “tia do Zap” é o espelho sombrio de uma época em que a opinião, tantas vezes, precede o fato, a emoção suplanta a análise, e a mentira, acomodada à mesa da família, passa a falar como se fosse verdade e memória.
Rio de Janeiro, 23 de abril de 2027 — 8h02