Há dias em que o mundo grita. As horas se precipitam em ruídos, urgências e vozes que pedem de nós mais do que o coração pode oferecer. Então, quase por instinto de sobrevivência da alma, nasce o desejo de partir — não apenas para longe no espaço, mas para dentro de um silêncio antigo, onde a vida ainda anseia respirar.
Ao sopé da Serra da Mantiqueira, tudo parece recordar o ritmo perdido. No céu, há uma nobreza espacial e quase pictórica que persegue o infinito. Nessa mansidão que ruge beleza, o vento não fala alto; sussurra. As árvores não impõem presença; acolhem. A casa mística — filha da saudade — pousa sobre a relva como um pensamento sereno e guarda a delicadeza dos lugares que parecem existir entre a memória e o sonho.
Há quem atravesse os dias em sobressalto. Outros escolhem cantar, como quem devolve à existência a sua música primeira. Entre o canto dos pássaros, o rumor das folhas e a luz morna do amanhecer que desce sobre a serra, o meu espírito reencontra a medida justa das coisas.
Nesse lugar da memória — ali onde nasci — o tempo não corre: amadurece. Cada instante tem a lentidão preciosa do orvalho sobre os colmos do bambuzal, do café nas mãos, do olhar perdido no verde multicor que consola sem dizer palavra.
Talvez viver seja isso: afastar-se, por um momento, de tudo o que nos endurece, para ouvir novamente aquilo que em nós ainda respira e sonha, em lúcido afeto e mansa inteireza da alma.
Rio de Janeiro, 21 de abril de 2026 — 3h10.