19 de abril nunca me pareceu uma data qualquer.
Da infância, guardo a lembrança nítida do pátio da escola primária: crianças enfileiradas, a disciplina solene dos pequenos gestos, a manhã pousada sobre os uniformes e o Hino Nacional cantado com amor e patriotismo. Naquele tempo, o “Dia do Índio” se fazia encanto, quase uma celebração pura da origem e da terra.
A essa lembrança soma-se outra, ainda mais íntima e formadora: a de minha mãe professora, a ensinar, com a seriedade afetuosa de quem educa para a vida, a força dos povos indígenas. Em sua voz, não havia apenas lição escolar, mas respeito profundo por aqueles que primeiro habitaram esta terra, por sua coragem, sua cultura e sua permanência diante do tempo e da violência.
Hoje, ao revisitar essas lembranças, percebo que carregam uma beleza comovente, mas também interrogações mais profundas.
O que significavam, de fato, aquelas homenagens? O que se aprendia sobre os povos originários para além do ritual escolar, da música e dos desenhos coloridos?
Muito antes das cidades, das avenidas e do rumor incessante do mundo moderno, a terra respirava sob outros nomes, outros cantos e outras cosmologias. Para os povos indígenas, rio, floresta e solo não se confundiam com mercadoria — eram pertencimento, memória e vida.
Todavia, no Brasil contemporâneo persistem disputas pela terra, violência social, racismo estrutural e a transformação de direitos em matéria de negociação política.
Talvez a dor maior esteja em perceber que as canções e as lições da infância ainda ecoam sobre um país que continua a dever justiça àqueles que primeiro pertenceram a esta terra.
O 19 de abril não celebra apenas uma memória: transforma-se em pergunta severa sobre que tipo de nação se constrói — aquela fundada na violência ou aquela guiada pela justiça.
O Brasil, ainda hoje, disputa a própria alma — não como identidade concluída, mas como campo de tensão contínua, onde diferentes visões de mundo seguem em disputa.
Rio de Janeiro, 19 de abril de 2026 — 21h40