Li a respeito de um lugar que, embora isolado, foi certamente construído para habitar o imaginário.
O Bohemian Club é um clube social de elite, exclusivo para convidados, fundado em São Francisco em 1872 por um grupo de empresários, financistas, políticos, executivos da mídia, antigos presidentes e conselheiros do poder. Todos homens. Mas, não quaisquer homens. São homens que circulam pelos corredores do capital, habituados ao peso do mundo — ou, talvez, ao peso de decidir sobre o mundo.
O clube é especialmente conhecido pelo seu retiro anual de verão — um evento saturado de segredos e controvérsias.
No local desse evento ergue-se uma imensa coruja de concreto, com cerca de doze metros, à margem de um lago artificial, cercada por sequoias antigas e pelo silêncio quase litúrgico da floresta. O lugar, por si só, parece uma alegoria cuidadosamente montada. A floresta oferece a solenidade da natureza antiga; o lago, a superfície imóvel da contemplação; a coruja, com seus olhos petrificados, assume a função de totem e testemunha.
Diante desse monumento realiza-se a cerimônia mais conhecida do retiro: a “Cremation of Care” — a "Cremação das Preocupações" — o drama ritual musical do Bohemian Grove. Nessa encenação, a efígie chamada Care é conduzida por barco através do lago e, ao final, queimada diante da estátua, simbolizando o abandono das preocupações mundanas sob o solstício de verão. A cena é teatral, quase operística. Figuras encapuzadas, fogo, música, água, árvores centenárias e, ao centro, a coruja imóvel.
Confesso que não foi o exotismo do rito que mais me impressionou, mas a sua ironia. Que homens seriam esses que se retiram à floresta para queimar, em gesto simbólico, as preocupações da vida? Seriam os que sofrem o peso da existência comum, ou os que dispõem do privilégio de se afastar dela?
Há, nessa liturgia masculina e elitizada, uma crítica que se escreve por si mesma. O clube historicamente formado por homens permanece, por tradição, restrito ao sexo masculino. Talvez seja esse o ponto em que a coruja deixa de ser estátua e se torna metáfora, porque não vigia apenas um lago em uma floresta californiana. Vigia a permanência histórica de uma arquitetura do poder: masculina, seletiva, econômica e discreta.
Vivemos tempos em que tudo se expõe. Mostram-se as vidas privadas, os afetos, as dores e as rotinas mais banais. O mundo é uma vitrine. Ainda assim, as decisões mais importantes preferem a sombra, a reserva, o murmúrio entre iguais.
Talvez seja essa a verdadeira função da coruja. Não a de presidir um ritual exótico, mas a de lembrar que o poder raramente abandona sua antiga vocação pela penumbra. Sob os seus olhos imóveis, o mundo repete uma velha verdade: a luz é o discurso; a sombra, o método.
Rio de Janeiro, 18 de abril de 2026 — 4h16