Voltei à casa da infância como quem atravessa um véu antigo. O portão era outro, mas o antigo ainda rangia baixo, e o quintal, agora acimentado, guardava um silêncio distante da algazarra infantil — não vazio, mas pleno de algo que resistia ao tempo.
Havia um verde ali, não mais espalhado em vasos cultivados pelas mãos da minha mãe, mas insinuado na memória das paredes — um verde que não era apenas cor, mas permanência. E, no fundo da sala, sobre um exuberante piano fantasma, o violeta sutil de um olhar menino parecia repousar sobre os móveis, como se o tempo tivesse aprendido a perdoar. Na lembrança anciã — antiga e fugaz — ao sopro afinado do pistom de meu pai, aquele momento se fazia eterno.
Sentei-me. O sofá vermelho era novo, porque a velha cadeira de balanço não mais existia. Nenhum gesto a mais.
A casa começou por mim: os passos desaceleraram dentro do corpo, as memórias deixaram de pesar. O coração, que tantas vezes se perdeu, agora apenas reconhecia. E algo mais profundo — quase esquecido — alinhava-se sem esforço, como se o caminho de volta fosse antigo e certo.
Não era retorno.
Era permanência revelada.
Entre o verde que sustenta e o violeta que transforma, compreendi, sem palavras: nunca parti.
Meses depois, fui arrancada daquele lugar. Naquele sonho, já não havia a pureza nem a paz de outrora.
Sílvia Mota
Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro, 13 de abril de 2026 — 8h10