Hoje ouvi novamente aquela expressão do sul que sempre me provoca um sorriso: “me caíram os butiás do bolso”. E resolvi investigar.
Descobri então o butiá: fruto modesto, redondo, amarelo — nada que anuncie grandes metáforas. Ainda assim, acabou se tornando uma das imagens mais delicadas do espanto humano. Porque o espanto, quando é verdadeiro, tem algo de súbito e desajeitado. A pessoa se interrompe no meio do gesto, perde por um segundo a compostura cotidiana. É nesse instante que, segundo a sabedoria gaúcha, os butiás caem.
A expressão é bela por isso: não descreve apenas a surpresa; descreve o pequeno desastre do susto. Algo se desarruma. O que estava guardado já não fica guardado. Os bolsos falham na sua função de proteger.
Penso que a vida é cheia desses momentos em que os bolsos não dão conta do que acontece: uma notícia inesperada, um talento que se revela de repente, uma paisagem que surge depois de uma curva na estrada — ou mesmo algo simples, como uma frase que alguém diz sem perceber o peso que carrega.
Nessas horas, ninguém consegue manter tudo no lugar. E talvez seja justamente isso que torna a existência menos previsível — e, portanto, mais interessante: esse instante em que a realidade nos surpreende de tal maneira que, por um momento breve e luminoso, os butiás caem do bolso. ✨
Rio de Janeiro, 9 de abril de 2026 — 8h47