De tempos em tempos alguém proclama, com convicção quase pragmática, a inutilidade da filosofia. Não serve para nada — dizem. Não constrói pontes, não repara motores, não paga boletos nem encurta filas. No inventário das utilidades imediatas, a filosofia parece ocupar um lugar incômodo, como um objeto antigo cuja função já não se recorda.
A objeção não é nova. Desde a Antiguidade paira a suspeita de que pensar demasiadamente é um luxo improdutivo. Aristófanes já zombava de Sócrates nas nuvens da comédia ateniense, enquanto, séculos depois, a modernidade mercantil aprenderia a medir quase tudo pela régua da utilidade.
Contudo, a filosofia jamais prometeu competir com as engenharias da vida prática. Sua tarefa é de outra ordem. Não constrói máquinas; examina as ideias com que as construímos. Não dirige o mundo; interroga os princípios pelos quais julgamos dirigi-lo.
Kant, frequentemente invocado nos debates contemporâneos, não aspirava orientar o universo para um “leste” ou um “oeste” moral. Seu gesto foi mais austero e, ao mesmo tempo, mais radical: convidar o espírito humano à maioridade. Sapere aude — ousa saber. Não se tratava de impor consciências, mas de libertá-las da tutela.
Curiosamente, até pensadores convocados para advertir contra os excessos da razão planificadora, como Friedrich Hayek, reconheceram algo semelhante. Ao recordar que a ação humana frequentemente produz consequências não intencionadas, ele reafirma uma antiga prudência filosófica: a consciência dos limites do próprio saber.
Talvez seja esse, afinal, o lugar da filosofia no concerto das atividades humanas. Não o da utilidade imediata, mas o da vigilância intelectual. Ela não oferece mapas definitivos do universo; ensina, antes, a desconfiar das cartografias demasiado simples.
Quem a julga supérflua talvez imagine que pensar é um luxo tardio da civilização. No entanto, basta percorrer a história para perceber que muitas catástrofes nasceram precisamente do contrário: da precipitação de agir sem refletir, da confiança excessiva em certezas mal examinadas.
A filosofia não nos garante o acerto do caminho. Mas nos concede algo talvez mais raro: a consciência de que caminhar exige pensar. E, num tempo em que tantas convicções se proclamam com estrépito, essa modesta disciplina do espírito permanece uma das formas mais altas de liberdade intelectual.
Rio de Janeiro, 7 de abril de 2026 — 13h37