Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Naquela mesa...

 

A história de Jacob do Bandolim, de seu filho Sérgio Bittencourt e da canção “Naquela Mesa” parece saída de um romance sobre orgulho, perda e reconciliação tardia. Talvez por isso seja tão comovente: porque revela um drama profundamente humano — daqueles em que a vida só permite compreender o amor quando o tempo já se tornou irreversível.

 

A mesa que ficou vazia

 

Há mesas que são apenas móveis. Outras, porém, tornam-se verdadeiros territórios da memória.

 

Na cultura brasileira, poucas mesas foram tão simbólicas quanto aquela que se armava na casa de Jacob do Bandolim, em Jacarepaguá. Ali, entre pratos, copos e partituras improvisadas, reuniam-se alguns dos maiores músicos do país.

 

O choro — ou chorinho, como o chama a intimidade brasileira — corria leve pela varanda, como se fosse uma extensão do vento da tarde carioca. Jacob — perfeccionista, exigente, quase tirânico com a própria arte — governava aquele pequeno reino musical com a severidade silenciosa de um maestro invisível.

 

Durante o dia, funcionário público. À noite, soberano absoluto do bandolim brasileiro.

 

Nenhuma mesa, por mais festiva que seja, consegue reunir permanentemente aqueles que o destino resolve separar.

 

Entre Jacob e o filho Sérgio Bittencourt, não raro instalava-se o silêncio. Um silêncio espesso, feito de orgulho, incompreensões e feridas domésticas — dessas que nascem pequenas e, com o tempo, erguem muralhas quase intransponíveis.

 

Meses passavam sem que pai e filho trocassem sequer um olhar. Até que o coração — esse árbitro silencioso e implacável da condição humana — interveio. Jacob sofreu um infarto.

Diante da fragilidade. Voltaram às conversas. Voltaram ao que sempre deveria existir entre eles: a convivência simples.

 

Mas o tempo, às vezes, concede apenas breves tréguas. Dois anos depois, Jacob morreu.

 

O guardanapo e a eternidade

 

Há lutos que pedem silêncio. Outros pedem música.

 

Conta-se que Sérgio Bittencourt, jornalista de temperamento crítico e inteligência aguda, escreveu a letra de “Naquela Mesa” num guardanapo, talvez durante o velório do pai.

 

A cena tem algo de literário: um filho inclinado sobre um pedaço de papel improvisado, enquanto a ausência recém-instalada ainda vagueia pela casa.

 

Nascia ali uma das canções mais dolorosas da música brasileira. Não é apenas um samba-canção. É quase uma elegia doméstica:

 

“Naquela mesa ele sentava sempre

e me dizia sempre o que é viver melhor…”

 

A força desses versos reside na simplicidade. Não há retórica excessiva, nem dramatização teatral. Há apenas a descoberta tardia de que a rotina — as conversas triviais, os conselhos repetidos, a presença aparentemente eterna — era, na verdade, uma das formas mais concretas do amor.

 

A mesa permanecia ali, intacta como um cenário cotidiano. Mas faltava alguém. E esse vazio — o lugar onde antes havia voz, gesto e riso — tornou-se o verdadeiro centro emocional da canção.

 

O coração que não suportou

 

A ironia trágica da história viria depois.

Em 1979, Sérgio Bittencourt morreu também de infarto, aos 38 anos. Pai e filho, afinal, compartilhavam mais do que divergências temperamentais: partilhavam a mesma fragilidade do coração.

 

Há algo quase clássico nisso, como nas antigas tragédias em que o destino insiste em repetir seus gestos.

 

O filho que escreveu sobre a ausência do pai acabaria, ele próprio, transformado em ausência.

 

Mas a canção permaneceu.

 

Gravada por Elizeth Cardoso e eternizada na voz de Nelson Gonçalves, “Naquela Mesa” atravessou décadas como um delicado monumento sentimental da música brasileira.

 

A verdadeira herança

 

Talvez o sentido profundo dessa história esteja naquilo que ela nos lembra silenciosamente.

 

Quase todas as famílias possuem uma mesa onde discutimos, discordamos, reconciliamo-nos, repetimos histórias, aconselhamos filhos, reclamamos da vida e rimos de banalidades. E quase sempre acreditamos que essas conversas se repetirão indefinidamente.

 

Mas não. Um dia alguém falta.

 

E é então que compreendemos que aquelas horas comuns eram, na verdade, instantes preciosos e irrepetíveis.

 

É por isso que “Naquela Mesa” continua a comover. Não fala apenas de Jacob e Sérgio. Fala de todos nós. Fala das mesas que ainda estão cheias — e das que, inevitavelmente, um dia também se tornarão silêncio.

 

Rio de Janeiro, 5 de abril de 2026 — 11h51

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 05/04/2026
Alterado em 05/04/2026
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