Violência de Estado, memória e trauma na história recente do Brasil
Sílvia Maria Leite Mota
Nota — Este texto baseia-se em documentação histórica, pesquisas acadêmicas e testemunhos públicos sobre a repressão política durante a ditadura militar brasileira.
Notas introdutórias
Certas histórias resistem ao esquecimento. Não se dissolvem no tempo nem encontram repouso nas distâncias históricas. Permanecem como marcas abertas na memória coletiva.
Em 16 de fevereiro de 2013, aos quarenta anos, Carlos Alexandre Azevedo tirou a própria vida. A morte, porém, não começou naquele dia. Muito antes, fora inaugurada.
A prisão de um bebê
Em 15 de janeiro de 1974, Carlos Alexandre tinha apenas um ano e oito meses quando, retirado dos cuidados da babá, caiu nas mãos da repressão. Filho do jornalista e cientista político Dermi Azevedo e da pedagoga Darcy Azevedo, tornou-se vítima indireta da perseguição dirigida contra opositores do regime militar.
O pai encontrava-se preso desde a véspera. A mãe enfrentaria prisão poucas horas depois.
A criança foi levada à sede do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS), em São Paulo — um dos principais centros de repressão política do país. Ali sofreu choques elétricos durante mais de quinze horas, sob o controle de agentes da repressão.
Carlos Alexandre tornou-se, assim, o mais jovem prisioneiro político submetido à tortura física durante a ditadura militar brasileira.
Sérgio Fleury e o aparato repressivo
No momento desses acontecimentos, o DEOPS de São Paulo encontrava-se sob a influência de uma das figuras mais temidas do aparato repressivo brasileiro: o delegado Sérgio Paranhos Fleury.
Fleury chefiava equipes de repressão política no DOPS paulista; participou da perseguição a militantes de esquerda nas décadas de 1960 e 1970; foi acusado por numerosos presos políticos de tortura e interrogatórios violentos. Tornou-se, assim, um dos nomes mais emblemáticos da repressão durante o regime militar.
Relatos históricos indicam que Carlos Alexandre permaneceu sob custódia de agentes ligados à equipe de Fleury no prédio do DEOPS.
Esse dado possui relevância decisiva, pois demonstra que o episódio não ocorreu em ambiente improvisado ou marginal da repressão, mas no interior de um dos principais centros de interrogatório político do país, sob responsabilidade de estruturas oficiais do regime.
A tortura como instrumento de pressão
A violência possuía finalidade precisa: quebrar a resistência dos pais durante os interrogatórios.
Historiadores da ditadura registram que o aparato repressivo utilizava, com frequência, familiares de presos políticos como instrumento de pressão psicológica.
Pesquisadores como Carlos Fico, Janaína de Almeida Teles e Marcos Napolitano documentam práticas recorrentes do sistema repressivo, entre elas ameaças contra filhos de militantes, prisão ou interrogatório de familiares e exposição de parentes à violência durante sessões de tortura.¹²³
O caso de Carlos Alexandre não foi isolado: estudos recentes mostram que a ditadura mantinha uma prática sistemática de instrumentalizar crianças e familiares como forma de coerção, convertendo até bebês em peças de um aparato repressivo institucionalizado. Assim, o corpo frágil de um bebê transformou-se em instrumento de coerção política.
As marcas de um trauma
Certos acontecimentos não se encerram quando cessam. Persistem como sombra que atravessa o tempo e se infiltra na existência inteira.
O trauma acompanhou Carlos Alexandre ao longo da vida.
Em 2010, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente sua condição de vítima da ditadura.⁴
Naquele período, em entrevista à revista IstoÉ, relatou fobia social desde a infância. Dependente de antidepressivos e antipsicóticos, vivia recolhido, sem amigos e sem trabalho.
O suicídio
Em 16 de fevereiro de 2013, aos quarenta anos, Carlos Alexandre tirou a própria vida.
Após sua morte, entidades de direitos humanos registraram uma frase que se tornou um verdadeiro epitáfio histórico:
“Hoje a ditadura militar concluiu a morte de Carlos, iniciada em tão tenra idade.”
Uma advertência histórica
Há crimes que não pertencem apenas ao passado. Permanecem como advertência moral de uma época.
A história de Carlos Alexandre integra essas memórias difíceis — aquelas que recordam que, em determinados momentos da história brasileira, o poder de Estado transformou até um bebê em prisioneiro político.
Uma violência iniciada nos primeiros meses de vida e cujas marcas atravessaram décadas, até alcançar o desfecho trágico de 2013.
Fonte testemunhal direta
O pai de Carlos Alexandre, o jornalista e cientista político Dermi Azevedo, registrou publicamente o ocorrido. Em entrevistas posteriores, relatou a prisão e a tortura do filho no prédio do DEOPS, quando contava apenas um ano e oito meses, com aplicação de choques elétricos e outras violências.
Referências bibliográficas
1 FICO, Carlos. Ditadura e repressão no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.
2 NAPOLITANO, Marcos. 1964: história do regime militar brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014.
3 TELES, Janaína de Almeida. Memórias dos cárceres da ditadura: os testemunhos e as lutas dos presos políticos no Brasil. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2011.
4 COMISSÃO DA VERDADE DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE SÃO PAULO. Infância roubada: crianças atingidas pela Ditadura Militar no Brasil. São Paulo: ALESP, 2014.
ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO (Coord. Dom Paulo Evaristo Arns). Brasil: Nunca Mais. Petrópolis: Vozes, 1985.
COMISSÃO DA VERDADE DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE SÃO PAULO. Infância roubada: crianças atingidas pela Ditadura Militar no Brasil. São Paulo: ALESP, 2014.
Fontes documentais
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Acervo DEOPS.
PROJETO Brasil: Nunca Mais.
COMISSÃO DA VERDADE DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE SÃO PAULO.
ARQUIVO NACIONAL. Memórias Reveladas.
Rio de Janeiro, 3 de abril de 2026 — 21h24