Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Textos

Enheduana: sacerdotisa, autora e figura singular da Mesopotâmia antiga

[O presente estudo, baseado em pesquisa bibliográfica, permanece aberto a novas interpretações e a eventuais informações que venham a surgir a partir de futuras investigações.]

 

Introduçao

 

Entre as figuras femininas que emergem da história da Antiguidade, poucas possuem a singularidade de Enheduana. Seu nome atravessou milênios preservado em inscrições e em tabuletas de argila, testemunhos materiais que remontam ao século XXIII a.C., no contexto do Império Acádio. Filha de Sargão de Akkad, fundador do primeiro grande império da Mesopotâmia, Enheduana ocupou posição de destaque no mundo religioso de seu tempo e tornou-se conhecida na tradição literária como autora de hinos dedicados às divindades mesopotâmicas.

 

A reconstrução de sua vida depende de evidências arqueológicas, textuais e iconográficas relativamente escassas. Ainda assim, os vestígios preservados permitem delinear o percurso de uma mulher que reuniu funções religiosas, políticas e literárias em um período fundamental da história do antigo Oriente Próximo.

 

Enheduana no contexto do Império Acádio

 

Uma figura feminina singular na história da Mesopotâmia, Enheduana exerceu, ao mesmo tempo, as funções de princesa, sacerdotisa e poeta. Foi a mais proeminente sacerdotisa em Ur durante o reinado de seu pai, o poderoso rei Sargão de Akkad. É conhecida por suas composições literárias e por diversos objetos contendo inscrições cuneiformes, incluindo um disco de alabastro atualmente conservado no Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pennsylvania.

 

Refletir sobre a condição feminina na Antiguidade e, em particular, sobre o exercício da poesia e da afirmação da autoria individual na produção literária mesopotâmica são algumas das questões abordadas nesta singela contribuição.

 

A questão da autoria

 

A protagonista deste estudo apresenta-se como autora dos seus textos. É a primeira narradora da História, o primeiro nome que assina um texto, uma pioneira em todos os sentidos.

 

Enheduana, com “estilo altamente individual, de conteúdo autobiográfico e histórico [...]”, aparece "subscrevendo seus manuscritos e se apontando como autora dos mesmos” (FOSTER, 2019, p. 3). Mas, na verdade, isso não é comum no mundo antigo.

 

As “três vidas” de Enheduana

 

Em um artigo publicado em 2021, Gina Konstantopoulos (2021, p. 58) apresenta o que denomina as três vidas de Enheduana.

 

A primeira vida corresponde à princesa e sacerdotisa de seu tempo, uma mulher do século XXIII a.C.

 

A segunda vida refere-se à celebridade literária posterior: seus textos, preservados em sumério, continuaram a ser estudados nas escolas babilônicas séculos após sua morte.

 

A terceira vida de Enheduana é, sem dúvida, o ícone em que ela se transformou ao longo do tempo — para a filologia, para as artes, para o feminismo da segunda onda e, sobretudo, para a própria História.

 

Essa mesma transposição é utilizada por Hallo e Van Dijk (1968) ao identificarem três fontes fundamentais para a reconstrução da vida de Enheduana: arqueológicas, históricas e literárias.

 

Mulheres na antiga Mesopotâmia

 

Existem poucas evidências materiais, textuais ou iconográficas de mulheres na antiga Mesopotâmia, com exceção à representação de divindades femininas e de integrantes da elite que desempenharam alguma função pública, como esposas dos ensi (governadores) ou altas sacerdotisas em templos dedicados a deuses masculinos. Contudo, observa-se uma situação bastante peculiar no período de Akkad e Ur III (2330–2000 AEC), pois muitas informações acerca das mulheres da nobreza sobreviveram na forma de inúmeras estátuas dedicadas a elas e de selos-cilindros a elas pertencentes (WINTER, 2010, p. 65).

 

Debates historiográficos contemporâneos

 

Autoras como a assirióloga Eleanor Robson ou a poetisa Bridget Minamore desmitificam o uso da figura de Enheduana como ícone feminista, aduzindo que desconhecemos totalmente “o que Enheduanna pensou ou fez” durante sua vida, em parte por ser um simples instrumento nas mãos de Sargão o Grande, e destacando que foi “provavelmente a mulher mais privilegiada do seu tempo”. (Cf. BERNABÉ-SÁNCHEZ; POZZER, 2023, p. 15, Nota 15).

 

Conclusão

 

A figura de Enheduana permanece situada na confluência entre história, tradição literária e construção simbólica. As evidências disponíveis permitem reconhecer sua importância no contexto religioso e político da Mesopotâmia antiga, bem como a relevância da tradição literária associada ao seu nome.

 

Ao mesmo tempo, os limites documentais exigem cautela interpretativa, lembrando que grande parte do que sabemos sobre ela resulta da preservação fragmentária de textos e objetos arqueológicos. Ainda assim, o fato de seu nome ter atravessado mais de quatro milênios gravado em tabuletas cuneiformes revela a força de uma memória cultural que manteve viva a presença de Enheduana na história da literatura e das primeiras civilizações urbanas.

 

Referências

 

BERNABÉ-SÁNCHEZ, Estefanía; POZZER, Katia Maria Paim. Eu, Enheduana. Revista Enunciação: Revista do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFFRJ, Seropédica, Rio de Janeiro, v. 8, n. 2, p. 1–21, 2023.

 

FOSTER, Benjamin R. Authorship in Cuneiform Literature. In: BERENSMEYER, Ingo; BUELENS, Gert; DEMOOR, Marysa (ed.). The Cambridge Handbook of Literary Authorship. Cambridge: Cambridge University Press, 2019. p. 13–26.

 

HALLO, William W.; VAN DIJK, J. J. A. The Exaltation of Inanna. New Haven: Yale University Press, 1968.

 

KONSTANTOPOULOS, Gina. The Many Lives of Enheduana: Identity, Authorship, and the “World’s First Poet”. In: DROß-KRÜPE, Kerstin; FINK, Sabine (ed.). Powerful Women in the Ancient World: Perception and (Self-)Presentation. Münster: Zaphon, 2021.

 

WINTER, Irene J. Women in Public: The Disk of Enheduanna, the Beginning of the Office of En-Priestess and the Weight of Visual Evidence. In: WINTER, Irene J. (ed.). On Art in the Ancient Near East. Leiden: Brill, 2010.

 

Rio de Janeiro, 29 de março de 2026 — 17h30

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 01/04/2026
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