No coração de Étheris, o céu parece vivo. Nuances diferenciadas arqueiam-se sobre as colinas, e o sol reflete notas silenciosas nas nuvens, alisando os rios entre pedras lisas. Cada ondulação, uma história própria.
Eryon caminha por entre árvores antigas, cujos troncos se erguem como edifícios naturais. Algumas são ocas e guardam pássaros e esquilos; outras projetam sombras densas em forma de jardins suspensos de folhas e luz. A cada passo, os raios cortam a copa e desenham mapas no chão, que apenas a atenção de quem percorre o lugar decifra.
Eryon traz lembranças que não pertencem apenas a si: gestos de bondade, palavras esquecidas, momentos que o tempo deixou para trás. Ao tocar o musgo úmido ou ouvir o sussurro da água, percebe que as memórias ecoam pelo mundo, como se cada pedra e cada folha guardassem vestígios de vidas passadas.
No centro de Étheris, um lago profundo reflete o céu com tal nitidez que quase impossibilita distinguir onde termina a água e começa o ar. O reflexo mostra não apenas o rosto, mas linhas invisíveis de escolhas e estradas não percorridas. Oferece clareza: tudo que se percebe com atenção ganha forma própria.
Ao tocar a superfície, a água não revela mágica, apenas quietude, pertencimento e compreensão. O instante basta para entender que Étheris não é um lugar inalcançável: existe nas pedras, nas árvores, no reflexo do lago e em cada gesto que alguém perceba.
Ao se afastar, o mundo permanece igual e, ao mesmo tempo, diferente: mais intenso, mais vivo. A atenção transforma a realidade, tornando-a rara, silenciosa e preciosa.
Rio de Janeiro, 29 de março de 2026 — 17h42