Nos primórdios da terra — quando o mundo ainda se encontrava em estado de promessa — o solo era denso e imóvel, como se carregasse em si um silêncio mineral. As chuvas desciam do céu com paciência ancestral, o sol percorria a abóbada do dia, e as sementes aguardavam sob a superfície, envoltas em um sono profundo. Faltava, contudo, à matéria terrestre aquilo que os antigos filósofos chamariam anima mundi, o sopro secreto que faz a vida circular.
Conta a tradição imaginária da natureza que, diante desse silêncio fecundo, a própria Terra — grande matriz de todas as formas — concebeu criaturas discretas, destinadas não à glória do céu, mas ao labor obscuro do interior do mundo.
Assim nasceram as minhocas.
Não receberam asas para tocar o vento, nem olhos para contemplar a distância. Foram dotadas de uma vocação mais profunda e quase metafísica: percorrer a escuridão do solo, abrir caminhos invisíveis, revolver lentamente o corpo da terra.
Com paciência que nenhum relógio mede, começaram a traçar seus corredores secretos. No gesto repetido e humilde, misturavam folhas mortas ao barro primordial, dissolvendo a memória do que havia sido para preparar o nascimento do que ainda viria.
Pouco a pouco, algo extraordinário ocorreu.
O solo, outrora compacto como uma pedra adormecida, tornou-se respirável. O ar passou a circular entre os grãos da terra. A água da chuva encontrou passagem para as profundezas. As sementes, tocadas por esse movimento subterrâneo, despertaram do antigo torpor. Então surgiram os brotos, as raízes, as árvores, os campos ondulantes e as flores que hoje perfumam a superfície do mundo.
Os sábios da natureza costumam dizer que, naquele instante inaugural, a Terra compreendeu uma verdade que raramente se revela aos olhos apressados: a grandeza da vida muitas vezes nasce no invisível.
Assim permanecem as minhocas — silenciosas arquitetas do subterrâneo, fiéis ao seu ofício quase alquímico de transformar morte em fertilidade, sombra em germinação.
Sob nossos passos, enquanto as cidades erguem suas torres e os homens discutem o destino do mundo, as minhocas continuam a exercer o antigo ministério da terra: ensinar que a vida se renova, incessantemente, nas regiões humildes e ocultas da existência.
Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2026 — 4h15