Não sou apenas um signo do zodíaco.
No imaginário simbólico da antiga astrologia, Sagitário constitui uma figura de travessia — e é nesse movimento que me reconheço. Em mim manifesta-se o impulso de ultrapassar fronteiras: não apenas as da geografia, mas também as do pensamento, da experiência e da própria consciência.
A tradição representa Sagitário como centauro arqueiro, criatura dupla composta de instinto e inteligência. Metade cavalo, enraizado na matéria e na força vital; metade humano, erguido na verticalidade do espírito. Nessa tensão entre impulso e reflexão encontro a minha própria chave interior: movimento e lucidez, força e direção.
A flecha que lanço em direção ao horizonte não busca um alvo visível. Dirige-se antes a um ponto ideal, quase metafísico — aquilo que os antigos chamavam telos, a finalidade última que orienta a marcha da existência. Viver, para mim, significa lançar a própria vida em direção a um sentido, mesmo quando o destino permanece envolto em mistério.
Sob a regência de Júpiter, planeta da ampliação e da sabedoria, Sagitário encarna o movimento de expansão da mente. Reconheço em mim essa inquietação intelectual: o gosto pelos sistemas filosóficos, pelas cosmologias e pelas grandes narrativas espirituais. Não se trata de mera curiosidade. Trata-se de uma verdadeira sede de sentido. Por isso, sinto afinidade com as grandes disciplinas da interpretação do mundo — filosofia, direito, teologia, pedagogia — campos em que o pensamento procura ordenar a experiência e conferir-lhe um eixo moral.
Entretanto, o mistério de Sagitário não reside apenas na erudição exterior. A sua força habita a dinâmica interior. O olhar não permanece fixo no chão da experiência imediata; ele se ergue para além das evidências, como se pressentisse que a realidade visível constitui apenas um limiar.
Assim caminho: em direção ao desconhecido, movida por uma confiança quase metafísica de que o universo possui coerência e significado.
A flecha que parte do arco não é apenas um gesto. É a própria vida — lançada no tempo, sustentada pela esperança silenciosa de encontrar, em algum ponto do infinito, o seu verdadeiro destino. ✨
Rio de Janeiro, 29 de março de 2026 — 14h23