Quando a Arte Espera
Criei filhos, ensinei, sustentei vidas, mesmo quando a perda se fez corpo e o silêncio, território. Nada disso substitui a arte. Mas tudo explica por que ela precisou recolher-se.
Não se foi. Apenas dormiu em mim e, recolhida, espera o instante certo para tocar minha mão, meu traço, minha palavra. Sempre retorna. Sempre insiste.
O que ficou incompleto não é falha. O que silenciou sabe voltar. O que foi interrompido não se perdeu. Cada obra inacabada é mapa secreto de resistência.
Quando houver vontade, retomarei: linha por linha, traço por traço. Não para confessar, mas para reencontrar o encontro entre palavra e escuta, pintura e escrita, memória e gesto.
Este momento não se apaga. É rito de confiança, não exposição. O fio já está seguro. Espera. Segue. E, se houver desejo, seguirá junto, sempre que o coração decidir, sempre que a mão tocar o invisível.
Rio de Janeiro, 28 de março de 2926 — 00h43