Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Textos

O epigrama na tradição literária

 

Há palavras que nascem para durar pouco no ar — e outras que parecem talhadas para a pedra. O epigrama pertence a essa segunda espécie: breve na extensão, mas feito da matéria das permanências.

 

O epigrama nasceu nas margens do mundo antigo, quando a poesia ainda se confundia com o gesto de inscrever. Sobre mármore ou bronze, gravavam-se poucas linhas: um nome, um feito, um luto, às vezes uma ironia delicada contra a fugacidade das coisas. Era a palavra condensada, consciente de que o espaço era escasso e o tempo, implacável.

 

Os gregos compreenderam cedo a força dessa economia.

 

Calímaco, entre outros, percebeu que a grandeza do verso não depende da largura, mas da densidade. Assim, o epigrama passou da pedra ao papiro, da inscrição ao livro, sem perder a vocação primeira: dizer muito em pouco, como quem deixa cair uma gota de essência sobre a página.

 

Roma herdou essa arte e lhe acrescentou agudeza. Com Marcial, o epigrama tornou-se lâmina fina: breve, elegante, por vezes mordaz. Em poucas linhas cabia um retrato inteiro da condição humana — suas vaidades, seus risos, suas pequenas tragédias.

 

Com o passar dos séculos, a forma atravessou línguas e sensibilidades. Mudaram os temas, os estilos, as tonalidades da emoção, mas permaneceu a mesma arquitetura íntima: uma abertura discreta, um pensamento que se concentra e, ao final, uma palavra que ilumina tudo o que veio antes.

 

Há, no epigrama, algo de gesto final. Como se o poeta recolhesse o mundo em silêncio e, depois de longa contemplação, deixasse apenas um traço — curto, preciso, inevitável. Por isso essa forma breve resiste ao tempo. Não pede abundância nem ornamento. Exige apenas aquilo que toda grande literatura exige: a coragem de escolher a palavra exata e a sabedoria de parar no instante certo.

 

Bibliografia sobre o tema

 

AMARAL, Flávia Vasconcellos. Brindai enquanto podeis! O simpósio nos epigramas fúnebres do livro VII da Antologia Palatina. 2018. Tese (Doutorado em Letras Clássicas) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.

 

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 52. ed. São Paulo: Cultrix, 2017.

 

CARDOSO, Isabella Tardim. O epigrama na literatura em língua portuguesa. São Paulo: Universidade Estadual Paulista; MEC, 2012.

 

CARDOSO, Isabella Tardim. Frases célebres: o epigrama na literatura em língua portuguesa. São Paulo: UNESP, 2016.

 

CESILA, Robson Tadeu. Epigrama: Catulo e Marcial. Campinas: Editora da Unicamp; Curitiba: Editora UFPR, 2017.

 

FONSECA, Luiz Carlos. A tradição epigramática na poesia latina. São Paulo: Humanitas, 2008.

 

JANUZZI, Eliana Petrillo. Edição e estudo das Sátiras, epigramas e outras poesias, do Padre José Joaquim Correia de Almeida. 2014. Tese (Doutorado em Estudos Literários) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2014.

 

MARTINS, Paulo Sérgio de Vasconcellos. Literatura latina. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.

 

MOISÉS, Massaud. A criação literária: poesia. 16. ed. São Paulo: Cultrix, 2012.

 

MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 12. ed. São Paulo: Cultrix, 2004.

 

NOGUEIRA, Carlos Alberto. Poética clássica e tradição literária. São Paulo: Edusp, 2005.

 

SILVA, Cristina Mascarenhas da. Anchieta, o Orfeu Brasílico: a prática do gênero epidíctico em três epigramas. 2015. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Estadual Paulista, Assis, 2015. 

Repositório Institucional UNESP SPINA, Segismundo. Introdução à poética clássica. São Paulo: Cultrix, 1995.

 

TEIXEIRA, Ivan. Mecenato pombalino e poesia neoclássica: Basílio da Gama e a poética do encômio. São Paulo: Edusp, 1999.

 

VASCONCELLOS, Paulo Sérgio de. Catulo: poesia lírica latina. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.

 

Rio de Janeiro, 25 de março de 2026 — 21h30

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 25/03/2026
Alterado em 26/03/2026
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