Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Textos

A lenda do Pônei Encantado

Sílvia Maria Leite Mota

 

No início éramos apenas dois adolescentes que se haviam reconhecido.

 

Minha beleza era assunto recorrente fora de casa. Circulava como comentário social, repetido com a naturalidade com que certas qualidades passam a integrar a conversa pública. Na família, porém, esse traço era apenas reconhecido, nunca exaltado. A prudência doméstica nunca oferecia importância excessiva ao atributo tão transitório. O rapaz, ao contrário, distinguia-se por outra qualidade. Possuía uma inteligência notável, unanimemente respeitada. Ainda assim, não faltava quem lembrasse, com franqueza algo severa, que a natureza não lhe fora generosa no rosto.

 

Minha inocência pueril não sabia nomear e tampouco compreender o que me provocava seu corpo forte e viril; havia algo em sua presença que despertava uma atenção curiosa e inquieta.

 

Meu pai nutria por aquele jovem uma estima particular. Sentavam-se frequentemente diante do tabuleiro de xadrez, e era o único jovem capaz de vencê-lo reiteradas vezes — proeza que, naquela casa, equivalia a uma forma discreta de consagração. Assim o percebiam dentro da minha casa.

 

Para mim, entretanto, nada disso existia. Eu via apenas um ser apaixonante, cujo olhar encontrava o meu com uma intensidade que dispensava explicações. Bastou essa coincidência repetida para que compreendêssemos, sem palavras, que havia entre nós um entendimento secreto.

 

Um amor percebido por todos. E recusado por todos. Apesar disso, o destinatário desse inquietante amor continuava sendo o único rapaz que entrava naquela casa com naturalidade. Conversava com meus pais, discutia ideias com meus irmãos, e sua inteligência bastava para justificar aquela presença.

 

Entre nós, entretanto, havia outro território. Habitávamos esse espaço por meio de sinais discretos: pausas ligeiramente prolongadas, olhares que se demoravam além do necessário, pequenas inflexões de gesto que apenas dois cúmplices sabiam interpretar. Quando isso já não bastou, inventamos códigos. Escrevíamos cartas indecifráveis — delicadas arquiteturas de linguagem destinadas a proteger aquilo que ainda não podia existir à luz comum. Escrevíamos sonhos.

 

Foi numa tarde em que a vigilância doméstica pareceu suavizar-se, que o vendaval das minhas emoções mais singelas permaneceu sentado ao meu lado por mais tempo do que jamais ousara. Falou então com uma calma quase cerimonial.

 

Começou a descrever um pônei encantado. Disse que aquela pequena criatura corria dentro de um cercado seguro, descrevendo círculos leves, quase festivos, como se soubesse que um olhar atento acompanhava cada movimento. Falou da crina agitada pelo vento, da elegância natural do corpo em movimento, da alegria quase vaidosa com que o animal parecia oferecer sua beleza a quem o contemplava. Falava lentamente.

 

Eu escutava em silêncio, pressentindo que aquela imagem não era uma narrativa casual.

 

Por fim, concluiu. Disse que aquele era o seu pônei encantado. E acrescentou, com serenidade que ainda hoje me parece implacável, que não merecia criatura tão rara.

 

Então, afirmou sem pedir licença, que a porteira precisava ser aberta.

 

Como no xadrez, cada movimento cuidadosamente calculado, cada palavra tinha seu efeito; e assim, a liberdade do pônei foi concedida. Nas suas palavras, o pônei deveria partir livre pelo mundo, até encontrar quem fosse digno de sua graça.

 

Nada se moveu naquela sala. Nenhuma porta real foi tocada, mas a palavra abrira o cercado.

 

Naquele instante compreendi algo que a juventude raramente consegue nomear: certas renúncias nascem do excesso de admiração.

 

Eu não queria partir. Nunca estivera presa naquele cercado. Corria ali por alegria, não por limite. E nenhum horizonte do mundo me parecia mais vasto do que aquele pequeno espaço onde um olhar tornava o movimento mais belo.

 

Mas a decisão já existia, inteira, dentro da palavra pronunciada.

 

Com o tempo, a vida dissolveu aquela pequena mitologia da adolescência. As cartas desapareceram, os códigos se perderam, e a casa voltou a ser apenas uma casa.

 

Ainda assim, algumas imagens resistem ao tempo. E às vezes, quando a memória silencia, ainda observo o pônei encantado correndo em círculos dentro do cercado. A porteira permanece aberta. Mesmo assim, o encanto insiste na permanência.

 

Epílogo

Conta-se que tanto o jovem quanto o seu pônei encantado — então humanizado —, tornaram-se professores, poetas e escritores. A vida conduziu cada um a seu próprio caminho; a memória, porém, conservou intacto o encanto daquele breve território da juventude.

 

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz 

Rio de Janeiro, 13 de março de 2026 — 6h19

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 22/03/2026
Alterado em 12/06/2026
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