Ergue-se, na cena pública, uma retórica de pureza ético-moral que se pretende inabalável. Livros sagrados são erguidos, palavras solenes são entoadas, e a tribuna assume a forma de um altar — ainda que, por vezes, sem fé que a sustente. Não se trata de convicção: trata-se de efeito.
Nesse contexto, a moral não limita — adorna.
Entretanto, fora do alcance das luzes, a linguagem se desfaz. O gesto muda de natureza, a firmeza cede, e aquilo que se proclamava absoluto torna-se maleável.
Não há escândalo nisso, porque a política sempre conheceu tais desvios. Mas há algo de mais grave quando a contradição já não se oculta. Quando se naturaliza.
Aqui a fissura se aprofunda.
Não é apenas o agente público que sustenta o descompasso. Há quem veja — e, ainda assim, consinta. Preserva-se o símbolo, mesmo esvaziado; mantém-se a forma, ainda que destituída de verdade. Não por engano, mas por uma espécie de conveniência íntima: é menos perturbador crer no discurso do que encarar o vazio que o atravessa.
Às vezes, basta um gesto mínimo — um sorriso deslocado, um acordo assinado fora de cena — para que toda a encenação se revele. E, ainda assim, segue-se como se nada tivesse ocorrido.
Forma-se, então, um pacto discreto, quase elegante em sua perversidade. A virtude deixa de ser exigência e passa a ser encenação suficiente. Não se espera coerência — espera-se desempenho.
E isso cansa.
E talvez seja esse o ponto mais incômodo: não se trata apenas de indivíduos que falham, mas de um acordo tácito em que a própria ideia de integridade se torna secundária.
Entre a tribuna e o bastidor, não é só a coerência que se perde. Perde-se — e já nem se disfarça muito — a necessidade de que exista.
Rio de Janeiro, 22 de março de 2023 — 1h02