Pela vida afora, aprendi a transmutar a dor — não por negá-la, mas por lhe conceder forma. Assim, o que machucava tornou-se linguagem: ora em escrita, ora em traço, como se o sofrimento, ao encontrar figura, perdesse o poder de dissolver e passasse a significar.
A escrita jamais cessou. Corre subterrânea, contínua, como um rio que não se deixa ver por inteiro, mas que sustenta, por baixo, a própria paisagem. As artes plásticas obedecem a outro ritmo — irregular, convulso, submetido às marés internas que não se governam.
A pintura nunca veio por acaso. Não conhece a superfície dócil nem a medida contida. Manifesta-se apenas quando a existência se rompe em excesso — quando o indizível pressiona, quando o dentro não comporta o próprio peso. Não é escolha, mas urgência: a matéria, saturada, exige abrir-se em cor. Mesmo assim, não permanece. Retrai-se diante da vida habitável, como se recusasse a estabilidade que silencia o abalo. Quando os dias se organizam e a realidade se deixa suportar, se ausenta — não por abandono, mas por suspensão. Pertence ao instante em que algo cede: à dor que transborda, ao colapso que desfaz, à reconstrução que ainda não encontrou nome. É língua da crise. É gesto de identidade em sua forma mais desnuda. Jamais foi hobby. É aparição.
A escrita, por sua vez, não conhece exílio. Permanece — inteira, silenciosa e obstinada. Subsiste mesmo quando tudo falta, quando o corpo se recolhe e o mundo impõe seus interditos. Não pede visibilidade, não depende do olhar, não se submete à circunstância. Acontece no silêncio, com a naturalidade do que respira sem ser notado. Ninguém a pôde arrancar, porque não se prende às mãos, não se esgota no gesto, não se curva à permissão.
A escrita é eixo — não apenas de expressão, mas de sustentação do existir. É território inviolável.
A pintura, não.
Rio de Janeiro, 8 de dezembro de 2025 — 5h16