Há quem insista em reduzir a legitimidade da representação a um espelhamento biográfico, como se a experiência humana fosse um território fechado, acessível apenas a quem nele habita por identidade e não por consciência. Mas a política — quando digna desse nome — não se constrói pela clausura das semelhanças, e sim pela travessia das diferenças.
Pergunta-se, com inquietação seletiva, se é necessário ser mulher, em todos os seus recortes possíveis, para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados do Brasil. A pergunta, no entanto, já nasce viciada por uma compreensão estreita do que significa representar.
Representar não é espelhar-se.
É sustentar.
É ouvir sem usurpar a voz alheia.
É compreender que a dor do outro não precisa ser vivida na própria carne para ser reconhecida como injustiça.
Se assim não fosse, nenhuma causa humana poderia aspirar à universalidade — e toda defesa de direitos seria um exercício de isolamento, e não de solidariedade.
A legitimidade, portanto, não repousa na identidade estanque, mas na capacidade de compromisso, na lucidez ética e na disposição firme de lutar por garantias que ultrapassam o próprio indivíduo.
Reduzir essa função à exigência de uma vivência específica é, paradoxalmente, negar o próprio fundamento da política: o de agir em nome de muitos, inclusive daqueles que não somos — mas que escolhemos, conscientemente, defender.
E talvez seja isso que mais incomode: a prova de que empatia, quando autêntica, não pede autorização para existir.
Rio de Janeiro, 21 de março de 2026 — 4h15.