A "Elite do atraso", de Jessé Souza, é um livro que se inscreve menos no campo da descrição e mais no da disputa. Não se trata apenas de interpretar o Brasil, mas de confrontar a forma como o Brasil aprendeu a se interpretar. Desde as primeiras páginas, o autor se volta contra uma narrativa amplamente difundida: a de que os impasses nacionais derivam de um Estado corrupto e de um povo inclinado ao “jeitinho”. Para Jessé, essa leitura não apenas simplifica a realidade — ela a distorce de modo funcional, desviando o olhar do verdadeiro centro de poder.
A tese que sustenta a obra é incisiva: o atraso brasileiro não nasce do Estado, mas de uma elite econômica que, ao longo da história, apropriou-se das estruturas institucionais e simbólicas do país. Essa elite não atua apenas na esfera material, controlando riqueza e meios de produção; sua força maior reside na capacidade de moldar percepções, influenciar a mídia e organizar o senso comum. Assim, constrói-se uma espécie de encenação coletiva em que os conflitos mais visíveis — sobretudo a corrupção política — ocupam o palco, enquanto as engrenagens profundas da desigualdade permanecem nas sombras.
É nesse ponto que o livro alcança uma de suas dimensões mais densas: a articulação entre passado e presente. Jessé Souza recusa a ideia de que a desigualdade brasileira seja fruto de contingências recentes ou de falhas administrativas. Ao contrário, ele a inscreve na longa duração histórica da escravidão, entendida não como episódio encerrado, mas como matriz estruturante das relações sociais. A abolição, nesse sentido, não teria rompido com a lógica de exploração e exclusão, apenas a teria reconfigurado sob novas formas. O país contemporâneo, portanto, ainda carregaria, sob outras vestes, a mesma hierarquia fundamental.
Dentro dessa reconstrução crítica, o autor dirige objeções diretas a intérpretes clássicos do Brasil, como Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro. Segundo ele, essas leituras contribuíram para consolidar a ideia de que o problema nacional reside em um Estado patrimonialista, obscurecendo o protagonismo das elites econômicas. Ao deslocar o eixo da crítica para o aparelho estatal, tais interpretações teriam, ainda que involuntariamente, reforçado uma visão negativa do próprio povo, visto como cúmplice ou portador de vícios culturais.
Outro aspecto relevante da obra é a distinção entre o que Jessé chama de “corrupção dos tolos” e “corrupção real”. A primeira corresponde aos escândalos políticos que ocupam o noticiário e mobilizam a indignação pública; a segunda, mais silenciosa, refere-se à apropriação estrutural do Estado por interesses privados. Ao enfatizar desproporcionalmente a corrupção visível, argumenta o autor, a sociedade é levada a ignorar mecanismos muito mais profundos e duradouros de concentração de poder e riqueza.
Nesse quadro, a classe média desempenha papel ambíguo e decisivo. Longe de constituir uma força autônoma de transformação, ela seria, em grande medida, reprodutora das narrativas da elite, aderindo à crença na meritocracia e à moralização seletiva da política. Forma-se, assim, um pacto tácito que naturaliza desigualdades e desloca responsabilidades, preservando as posições de privilégio.
A linguagem literária de Jessé Souza acompanha a natureza de sua proposta: é direto, combativo, por vezes reiterativo. Há no texto uma intenção clara de ruptura, de desestabilização de certezas, o que confere ao livro força e alcance, mas também explica as resistências que suscita. Não são poucas as críticas dirigidas à obra, que apontam para generalizações excessivas, leitura fortemente marcada por viés ideológico e certa simplificação no tratamento de autores clássicos. Em alguns momentos, a argumentação parece substituir uma narrativa abrangente por outra igualmente totalizante.
Ainda assim, seria um equívoco reduzir "A elite do atraso" a seus excessos. Sua principal virtude está em recolocar a desigualdade no centro do debate e em questionar explicações que, de tão repetidas, adquiriram aparência de evidência. O livro não oferece conforto intelectual; ao contrário, instaura desconforto, desloca o olhar, sugere que aquilo que se toma como causa pode ser apenas efeito, e que o que se apresenta como problema talvez funcione, na verdade, como disfarce.
Ao final, permanece a impressão de que Jessé Souza escreve contra uma invisibilidade cuidadosamente construída. Seu argumento, em última instância, não é apenas sobre quem detém o poder, mas sobre quem consegue ocultá-lo. E, nesse movimento de revelação, o livro se afirma como intervenção — imperfeita, discutível, mas incontornável.
Rio de Janeiro, março de 2026 — madrugada — 1h02