Em Kant, a disciplina é libertadora. Nas suas palavras: “A disciplina transforma a animalidade em humanidade” (KANT, 2002, p. 12). Isso significa que, sem disciplina, o ser humano permaneceria em um estado primitivo, guiado por impulsos naturais, mantendo resquícios de animalidade que comprometem a sua realização como ser racional. A disciplina, portanto, não se apresenta como uma limitação arbitrária, mas como um instrumento de formação da razão e da moralidade: ela conduz o indivíduo à consciência de suas obrigações e à capacidade de autogoverno.
No campo da educação contemporânea, as evidências de sua necessidade são dramáticas. É comum constatar, nos ambientes escolares, manifestações de intolerância, desrespeito, agressividade, desmotivação e violência, problemas que comprometem o aprendizado e o desenvolvimento social dos alunos. Esses comportamentos revelam não apenas lacunas pedagógicas, mas também a ausência de internalização de normas e da compreensão de limites, tão enfatizada por Kant como condição para a liberdade responsável.
O filme Entre les Murs exemplifica de forma vívida essa realidade. Nele, um professor francês busca valorizar o potencial de seus alunos, imigrantes de diferentes países, inicialmente apáticos ao conhecimento. Contudo, sua paciência se esgota, e ele ofende duas alunas chamando-as de “vagabundas”. Os colegas se insurgem contra a atitude do professor, defendendo as colegas, mas a tensão aumenta. O aluno Souleymane, de personalidade difícil, reage violentamente, ferindo a colega Khoumba antes de ser expulso da escola. Após esse incidente grave, contudo, observa-se uma mudança: os alunos passam a participar mais ativamente das aulas, e a relação mestre-discípulo torna-se possível.
Esse episódio aproxima-se das orientações de Kant sobre a educação: é necessário permitir ao educando certa liberdade de escolha, mas dentro de limites claros e acompanhada da conscientização da importância das normas. A disciplina, quando aplicada com coerência e racionalidade, não é opressiva; ao contrário, cria as condições para que o aluno compreenda o valor da obediência ética e da responsabilidade social.
Kant sustenta que, ao absorver princípios assim estruturados, o indivíduo passa a agir em consonância com as máximas que sua própria razão proclama. Nesse sentido, a disciplina se internaliza e transforma-se em autogoverno moral: o indivíduo torna-se seu próprio educador, capaz de escolher voluntariamente ações corretas sem depender da imposição externa.
A internalização da disciplina representa, para Kant, o caminho para a autonomia moral. Ao dominar seus impulsos e agir conforme princípios racionais, o indivíduo conquista a liberdade verdadeira, que não se confunde com a simples ausência de restrições externas, mas que se realiza na capacidade de agir segundo a razão e a moralidade (KANT, 2002, p. 12). No contexto escolar, isso significa que a educação eficaz não é apenas transmitir conteúdos, mas formar cidadãos capazes de julgar, decidir e agir de maneira ética, colaborativa e responsável.
A narrativa do filme evidencia ainda que a disciplina kantiana não exclui o afeto, a compreensão ou o diálogo; pelo contrário, ela depende de relações pedagógicas fundamentadas na confiança e no respeito mútuo. O mestre, ao guiar o aluno sem anular sua liberdade, permite que a disciplina seja percebida como caminho para a liberdade, e não como imposição autoritária. A verdadeira educação, assim, articula normas, liberdade e moralidade: disciplina e autonomiacaminham juntas, formando indivíduos capazes de exercer sua liberdade dentro de limites éticos e sociais, e contribuindo para a construção de uma comunidade educativa mais justa e harmoniosa.
[Ampliação de trabalho acadêmico escrito em 2005]