Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Textos

Vou estrangular o seu sorriso

(Com inspiração num fato real)

 

A manhã surgiu banal, quase ofensivamente banal. O sol incidia oblíquo sobre o pátio da Escola Municipal Aurora, iluminando mochilas abertas, cadernos recém-encapados, a coreografia automática de adolescentes que ainda acreditam na repetição dos dias.

 

Na sala 2B, as carteiras dispostas em fileiras guardavam a disciplina geométrica que precede o caos. Marina Lopes ocupou o lugar de costume, segunda fileira, próxima à janela. Caderno alinhado, estojo paralelo à borda da mesa. O sorriso — traço involuntário, quase reflexo fisiológico — acompanhava cumprimentos e pequenas trocas matinais.

 

Na fileira lateral, Daniel Faria observava. Ao lado, Renato Vasconcelos partilhava o mesmo campo visual e, sobretudo, o mesmo ressentimento cultivado em mensagens noturnas. Nos diálogos digitais, a irritação adquirira contornos nítidos:

 

— “Não suporto aquele sorriso.”

— “Parece deboche.”

— “Quinta termina.”

 

Não havia evidência de escárnio. Havia percepção convertida em certeza íntima. O riso alheio transformado em afronta. O incômodo reiterado até ganhar densidade moral.

 

O bilhete foi preparado na véspera. Papel simples, dobra precisa. A frase escrita com caligrafia firme, sem hesitação:

 

“Vou estrangular o seu sorriso.”

 

Durante a primeira aula, sob justificativa irrelevante, Daniel caminhou entre as carteiras e depositou o papel sobre a mesa de Marina. Gesto contido, quase burocrático. Retornou ao lugar. Renato acompanhou cada movimento sem surpresa.

 

Minutos depois, Marina percebeu o objeto estranho entre caderno e estojo. Abertura lenta. Leitura. Releitura. O sorriso habitual não compareceu. O olhar ergueu-se em direção à fileira lateral.

 

O movimento seguinte cumpriu o que fora ensaiado em conversas silenciosas. A faca, até então oculta, surgiu com decisão amadurecida. Um único golpe, direto ao peito. Seco. Inequívoco.

 

O tempo contraiu-se. O apagador caiu da mesa da professora. Uma cadeira tombou. O ar da sala adquiriu densidade irrespirável.

 

Daniel não correu. Não houve explosão emocional. A lâmina foi deixada sobre a mesa mais próxima, como instrumento cuja função se encerrara. Passos firmes em direção à porta. Corredor atravessado sem pressa. Portão cruzado com naturalidade administrativa.

 

Renato permaneceu imóvel por instantes, espectador de um desfecho que participara em intenção. As mensagens no celular — recuperadas posteriormente — selaram a cumplicidade:

 

— “Quinta.”

— “Então faz.”

— “Precisa acabar.”

— “Também não aguento.”

 

A ambulância chegou tarde demais para alterar o essencial.

 

A investigação confirmou premeditação. Não impulso, não arroubo súbito: projeto. Convergência de duas vontades nutridas pela mesma aversão.

 

Os motivos tornaram-se objeto de disputa semântica e jurídica.

 

Inveja — ressentimento diante do destaque escolar, da visibilidade espontânea, do reconhecimento docente?

 

Misoginia — intolerância dirigida ao feminino que ocupa espaço, que se afirma sem subordinação, que ri sem pedir autorização simbólica?

 

Feminicídio — expressão extrema de violência fundada na condição de mulher, hipótese sustentada com veemência pela família, que reivindica não apenas punição, mas nomeação adequada do fato?

 

A controvérsia deslocou-se do ato consumado para a qualificação do motivo. O processo ainda percorre laudos psicológicos e pareceres ministeriais.

 

Daniel cumpre medida socioeducativa de internação. Renato, reconhecido como partícipe moral pela adesão consciente ao plano, também cumpre medida determinada judicialmente. A legislação substitui pena por percurso pedagógico; o tempo institucional não apaga o gesto executado.

 

Na sala 2B, a disposição das carteiras foi reorganizada. A mancha no piso desapareceu sob nova camada de verniz. O cotidiano retornou com disciplina forçada.

 

Permanece, contudo, a frase escrita no bilhete, arquivada nos autos e repetida em audiências:

 

“Vou estrangular o seu sorriso.”

 

Algumas sentenças não operam no plano metafórico. Anunciam, executam, encerram. Dois adolescentes compartilharam o ressentimento. Um redigiu a promessa. Ambos compactuaram. Um desferiu o golpe fatal. E um sorriso — fenômeno simples, quase biológico — converteu-se em alvo de uma raiva cuja natureza ainda se debate entre inveja, misoginia e feminicídio.

 

Rio de Janeiro, 1⁰ de março de 2026 — 2h32

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 13/03/2026
Alterado em 16/03/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Apostila - Direito dos contratos
Apostila - Lei de Falência e Recuperação de E...
Apostila - Direito do Trabalho - II
MOTA, Sílvia et al. Doenças pulmonares: uma v...
MOTA, Sílvia et al. Festa Surpresa
MOTA, Sílvia et al. Antologia de Poetas Brasi...
MOTA, Sílvia et al. Biodireito e Bioética
MOTA, Sílvia et al. Poetrix 4 - Terra
MOTA, Sílvia et al. Mãos que falam - antologi...
MOTA, Sílvia et al. Show de Talentos em Prosa...
MOTA, Sílvia. Apostilas jurídicas diversas
MOTA, Sílvia. Metodologia Jurídica II - Apost...
MOTA, Sílvia. Trabalhos acadêmicos: metodolog...
https://www.instagram.com/belasartesbelas_silviamota