Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livros à Venda Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Textos

Zuzu Angel: tecido e linha que o Estado não soube cortar

— Uma reflexão sobre a coragem que transforma o luto em denúncia, a forma em argumento e a estética em memória resistente —

 

Zuzu nasce linha antes de ser nome. Linha é matéria obediente apenas na aparência. Quando esticada demais, corta. Quando tensa, denuncia. O mundo supôs que moda fosse superfície. Zuzu soube cedo que superfície também sangra.

 

O gesto inaugural não foi estético. Foi ontológico.

 

Costurar é decidir o que permanece junto. Costurar é escolher onde a ruptura não será aceita. Num país treinado para separar — corpo de ideia, mãe de filho, verdade de registro —, Zuzu fez da agulha um argumento.

 

O Brasil entrou nos vestidos como um animal ainda sem tradução. Cores que não pediam desculpa. Formas que não imploravam chancela europeia. A moda, acostumada à obediência muda, começou a falar. E falar, naquele tempo, era perigoso.

 

Depois, o Estado resolveu praticar a pedagogia do sumiço. Não matar apenas — dissolver. Não anunciar — arquivar. O filho desaparece como desaparecem os que atrapalham a narrativa oficial: sem verbo, sem rito, sem conclusão. O poder chama isso de normalidade administrativa. A mãe chama de crime.

 

Zuzu não aprendeu a calar. Aprendeu a traduzir.

 

Transformou tecido em documento. A passarela virou código. Anjos surgem não como promessa, mas como evidência de queda. Flores tropicais carregam luto disfarçado. Vestidos deixam de ser convite e passam a ser denúncia ambulante. O corpo feminino, historicamente tolerado apenas como ornamento, atravessa salões carregando acusação.

 

A política não sabia como reagir. Não havia censura preparada para rendas. Não havia decreto contra bordado. A ditadura entendia de força, não de símbolo. E símbolos, quando persistem, corroem.

 

Zuzu escreve cartas como quem costura um país possível. Fala com estrangeiros porque o dentro está interditado. A dor não pede piedade; exige reconhecimento. Não busca vingança — busca verdade, palavra que regimes autoritários tratam como contrabando.

 

O anjo cai. A queda não é metáfora suficiente. Há técnica demais no impacto. O asfalto reconhece padrões. O discurso oficial chama de acidente aquilo que carrega intenção. O Estado prefere sempre a versão neutra da violência.

 

Zuzu permanece onde o poder falha: na memória que não aceita síntese, na estética que recusa inocência, na mulher que entendeu que silêncio também é uma forma de cumplicidade.

 

Algumas vidas não se encerram. Ficam abertas como costura interrompida. Não para serem fechadas — mas para que ninguém finja que não viu.

 

Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 2026 — 9h38

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 01/02/2026
Alterado em 01/02/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Apostila - Direito dos contratos
Apostila - Lei de Falência e Recuperação de E...
Apostila - Direito do Trabalho - II
MOTA, Sílvia et al. Doenças pulmonares: uma v...
MOTA, Sílvia et al. Festa Surpresa
MOTA, Sílvia et al. Antologia de Poetas Brasi...
MOTA, Sílvia et al. Biodireito e Bioética
MOTA, Sílvia et al. Poetrix 4 - Terra
MOTA, Sílvia et al. Mãos que falam - antologi...
MOTA, Sílvia et al. Show de Talentos em Prosa...
MOTA, Sílvia. Apostilas jurídicas diversas
MOTA, Sílvia. Metodologia Jurídica II - Apost...
MOTA, Sílvia. Trabalhos acadêmicos: metodolog...
https://www.instagram.com/belasartesbelas_silviamota