O ônibus partiu como partem as coisas públicas: já em andamento, sem intimidade possível. São Paulo ficava para trás enquanto o corredor se enchia de presenças provisórias. Na poltrona 2, silêncio atento. Na poltrona 4, instalou-se a voz.
O que se vivia ali tinha nome — um neologismo plausível, ausente de qualquer manual: parolovia performática em espaço fechado. Não era clínica. Era fenomenologia de ônibus. Não se tratava exatamente de uma conversa. Era um uso contínuo da palavra, desses que não pedem resposta. O celular permanecia no colo como um álibi social. Às vezes havia fone de ouvido, às vezes não. A alternância não alterava o essencial: a fala precisava circular. A frase implícita era simples e eficaz — não falo sozinha, estou ocupada.
O público real era o ônibus.
Em poucos quilômetros, a senhora percorreu áreas inteiras do conhecimento humano. Orientou interlocutores invisíveis em questões jurídicas com a segurança de quem nunca é contestada. Opinou sobre condutas médicas com a tranquilidade dos que não assinam prontuários. Organizou procedimentos técnico-administrativos como se o mundo fosse uma planilha mal preenchida. Não sugeria: sentenciava.
Quando chegou à saúde mental, não houve transição. Houve comando.
— Você tem um transtorno neuropsiquiátrico. Precisa de repetição: 4367, 4367, 4367… Se colocar um milímetro a mais, você não alcança. Você tem esse transtorno. Aceite. Os outros têm que aceitar também. Não tem remédio. Não tem cura. Não tem o que fazer.
Ali se revelava a crueldade central da cena: o domínio discursivo absoluto. A fala não descrevia uma condição — fechava destinos. Não havia margem, processo ou possibilidade. Apenas aceitação.
Vieram os nomes dos medicamentos — Ritalina, Venvanse, Atenta — lançados ao espaço público como se fossem termos neutros. Nenhum resolvia. Nenhum alterava o ponto principal. A farmacologia não cuidava: confirmava a sentença.
Então, o silêncio. Cerca de três minutos. Um intervalo raro, quase solene, desses que fazem supor encerramento. O ônibus seguia. A voz, não.
Quando retornou, trouxe nomes próprios. Leandro agora existia. Era terapeuta. A mulher de Leandro também passou a existir — não como pessoa, mas como objeto de diagnóstico. Sofria de déficit de atenção. Podia ajudar, mas não conseguia se desenvolver em nada. A limitação foi narrada como dado técnico, não como violência. Ao mesmo tempo, o marido terapeuta era implicitamente desautorizado: alguém incapaz de perceber ou lidar com o que lhe era mais próximo. O saber profissional era rebaixado pela convicção alheia, dita em voz alta, diante de estranhos.
Curiosamente, a senhora parecia educada. O tom era firme, jamais agressivo. Não havia grito, não havia grosseria. Apenas a segurança plena de quem ocupa o espaço como se o silêncio dos outros fosse concordância. Não era descontrole — era desconsideração polida, uma forma contemporânea de violência: limpa, articulada, inevitável em espaço fechado.
A ligação caiu. A solenidade também.
— Oi.
— Oi.
— Oi.
A palavra, reduzida ao mínimo, insistia em existir. Não chamava alguém do outro lado da linha; testava a própria permanência. Veio o aborrecimento, sem elevação de tom:
— Se ele se aborreceu, é problema dele.
— Vou ficar por aqui. Não me interessa continuar essa conversa.
O celular permaneceu mudo no colo. A autoridade recolheu-se satisfeita. O ônibus passou a carregar um silêncio espesso — desses que não aliviam, apenas registram.
Na parada de Resende, uma jovem mudou de poltrona. A senhora avançou uma casa: da 4 para a 3. Mudou o número, não o gesto.
Seguiu-se um silêncio mais longo. Quase meia hora. Os olhos e os dedos não se desgrudavam do celular. Parecia encerrado. Não estava.
Quando o ônibus entrou na Dutra, a voz reapareceu. Desta vez, havia um interlocutor audível, aparentemente feminino. O tema agora era outro, mas o mecanismo era o mesmo. Falou de umbanda, macumba, corpo fechado. Disse que não acreditava nas macumbas que lhe enviavam. Era mais forte do que tudo aquilo. A convicção, novamente, ocupava o espaço como verdade inquestionável.
O ônibus chegou à plataforma de desembarque da Rodoviária Novo Rio. A voz desceu. O efeito, não.
Na poltrona 2, alguém pensava — em silêncio — que há discursos mais ruidosos quando se vestem de cuidado. Que certas falas não procuram escuta, mas submissão. E que, em tempos de exposição contínua, o espaço público virou consultório, tribunal e plateia — sem que ninguém tenha concordado em assistir.
Rio de Janeiro, 30 de janeiro de 2026 — 17h36.