Maldição (ao tom de Edgar Allan Poe)
Perder você não foi queda — foi abismo intocável que se abre em silêncio arcano.
A terra rasgou-se em profundezas imóveis, como altar profano, onde forças imemoriais cobram tributo ao coração fatigado. E eu, desarmada, fui cruelmente tragada por regiões soturnas, onde em cada sombra há segredos que a razão teme escutar.
Ali, no reino subterrâneo, a alma encontra lições gravadas com tinta de sofrimento antigo. Nesse submundo abissal de ecos irreconciliáveis, seu nome em fogo e sangue surgia em pulsação espectral — som indistinto, ferida que sussurra, símbolo gravado nas rochas, predador silencioso e cruel à espera do instante fatal.
O toque jamais vivido consumiu mais sensações do que qualquer contato terreno — chama impossível, maldição que cintila na noite interna e eterna, como brasas fosforecentes de um sonho interdito.
O amor — ou simulacro que o imitava — ergueu eclipse inflexível, apagou constelações remanescentes, distorceu rumos e arrastou meus passos por corredores de flores lúgubres. O ar era terror doce e colorido e nessa incoerente penumbra revelou-se a perdição do amor.
Desvendada a força que devora, enquanto deixa no sofrimento o eco do que jamais existiu, avancei pelo desconhecido, perdida entre véus de penumbra, órfã de qualquer lampejo, com o peso da ausência pendido sobre um corpo virgem. Ao cavalgar essa cruz de mármore, no extremo da angústia, quando até o lamento se desfaz, encontrei, entre restos de cinza e lume, o fio quase imperceptível de uma força ancestral — sopro que nasce somente quando tudo parece ruir.
Suspensa nesse fio indomável tecido pela mão da resistência, afastei-me do labirinto, não em triunfo soberano, mas em marcha exausta — coroa somente possível para quem retorna incólume do subsolo da alma. A superfície ofereceu claridade implacável; não júbilo, não suavidade, apenas lucidez austera, capaz de revelar que certas ruínas contêm o rito oculto de uma ascensão involuntária.
Há tragédias que não se superam, há dores que apenas se acomodam como pedras rituais no templo reconstruído. E, nesse templo, erguido em solitude, sei enfim, que a maldição do amor marcou minha queda. Mas a solidão — minha salvação.
Rio de Janeiro, 27 de novembro de 2025 - 9h12