Trump não é apenas um nome, nem apenas um rosto estampado em cartazes ou manchetes. É a revelação de um mal mais profundo: a doença do poder econômico quando se coloca acima de tudo, dos povos, das leis, da própria ideia de humanidade.
Trump não chegou à política pelas veredas da filosofia, nem pela força de um ideal de Estado. Chegou pela lógica da fortuna — e fez da fortuna o seu discurso, o seu altar e o seu escudo. Em Trump, o capital deixa de ser engrenagem e se converte em oráculo. Não se trata mais de riqueza que circula, mas de riqueza que comanda, que dita, que compra a narrativa e vende a ilusão de grandeza.
Há quem diga que Trump é um gênio da comunicação, um populista de rara habilidade. Mas não: Trump é sintoma, não causa. Sua ascensão é apenas a face exposta de uma febre que já ardia na carne do mundo. Encarna o desejo da sociedade de se ver refletida em cifras, a fantasia de que o sucesso de um bilionário pode ser traduzido em prosperidade coletiva.
E assim, com slogans e bravatas, tornou-se ícone. Não da política — mas do poder econômico travestido de política. Sua força não nasce de ideias, mas de cifras que ecoam como tambores. O dinheiro se fez bandeira, o marketing se fez profecia.
É aqui que a democracia adoece. Quando a urna já não pesa pela consciência, mas pelo espetáculo financiado; quando a verdade já não convence, mas o capital compra a versão mais vendável; quando o povo já não elege, mas consome. A doença é essa: o poder econômico como dogma, e Trump como o profeta de seu evangelho dourado.
Mas toda febre, cedo ou tarde, cobra o corpo em que arde. O poder econômico sem freios devora as próprias bases que o sustentam. A democracia, se transformada em vitrine, racha como vidro frágil. E os povos, que acreditaram no brilho, descobrem a sombra que sempre esteve escondida atrás das luzes.
Trump, afinal, não é a doença em si. É apenas a cicatriz que denuncia a infecção. O corpo maior — a sociedade que confunde liberdade com mercado e cidadania com consumo — é quem precisa de cura. Porque enquanto o poder econômico se vestir de mito, o mundo seguirá aplaudindo o sintoma, sem perceber que a doença continua a corroer suas entranhas.
Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2025 - 9h32