A água se desdobra em canto antigo,
como se a própria Roma respirasse
por entre mármores que guardam
a lenta idade dos deuses.
Eu a olho estupefacta —
e é como se olhasse para algo
que sempre esteve em mim,
antes mesmo de qualquer viagem.
Desde a adolescência,
essa fonte repousava na minh'alma,
como carta jamais enviada,
mas respondida em silêncio.
Agora, frente a frente,
nossos mitos se erguem
em musculaturas eternas,
Lanço a moeda —
não por esperança de retorno,
mas para reconhecer, enfim,
que nunca parti.
Há destinos
que nos escolhem cedo.
Há lugares
que nos convocam
quando ainda somos
apenas promessa,
quando ainda não sabemos
o nome do que nos chama.
Roma me chamou assim.
Suave.
Imensa.
Com a voz líquida e afinada
da Fontana di Trevi,
que corre sem se perder,
que canta sem se romper,
que sabe do tempo
o que eu ainda aprendo.
E, compreendo, enfim,
na vibração serena da água,
que há saudades
que nascem de um futuro,
há memórias
que nos precedem,
há encontros
que chegam antes da vida.
E tudo isso
— agora —
cumpre-se em mim.
Roma, 11 de novembro de 2025 — quase madrugada.