Nos almanaques digitais — Google, WhatsApp, perfis que se multiplicam como reflexos de vidro — o ruído ocupa o pensamento, e a aparência devora a substância. O instante se celebra como eternidade, e o silêncio, fonte viva de discernimento, é empurrado para o esquecimento. O pensamento se curva diante do reflexo, o espírito se curva diante do espetáculo. Informação cresce, consciência rareia; compreender exige pausa, e compreender-se exige abismos.
O retorno à interioridade é um gesto furtivo: escutar o que permanece, sentir o que não se anuncia, tocar a própria sombra no eco do silêncio. A autenticidade não nasce no espelho das telas, mas na escuridão clara de um encontro consigo mesmo, onde não há audiência, não há aplauso.
Pensar, neste tempo de ruídos incessantes, é ato de resistência; conhecer-se, ato de transcendência. E mesmo que o mundo celebre o instante como glória, há um espaço secreto — sempre ele — onde a poesia sobrevive, estranha e indomável, entre o sopro e a respiração, entre o ruído e o silêncio, entre o que se mostra e o que se guarda.
Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2025 - 23h26