O tempo não passa. Atravessa. Silencioso, insolente, como vento que invade portas trancadas e se demora em frestas que fingimos ignorar. Não se oferece, não se deixa capturar. Enrosca-se sobre abismos, desliza por espirais que nos prendem à própria carne, serpenteia desfiladeiros internos onde nos perdemos, frágeis, tentando medir sua grandeza com calendários, relógios, motivos — objetos que nunca foram mais do que sombras diante de sua força.
O tempo ri. Sorri. Ri das nossas mãos vazias, de nossos instrumentos inúteis, de palavras que tentam aprisioná-lo. Sorri da nossa inocência lúdica, de quem crê que selfies podem conter o sopro do infinito. Guarda segredos de carne e silêncio: a infância que nunca volta, a dor que amadurece como fruta secreta, o amor que persiste mesmo quando tudo se desfaz, as perdas irreparáveis que reescrevem mapas e labirintos dentro de nós. E quando acreditamos compreendê-lo, o tempo muda de passo, de compasso, de rosto. Veste-se de ar insólito, veste-se de ausência, veste-se de nós mesmos sem permissão. Empurra-nos suavemente, com mãos invisíveis, sussurrando: “— Siga, porque ainda não acabou." E seguimos, inseguros, sabendo que nunca o seguraremos, que jamais o deteremos.
Caminhar com o tempo é aceitar que somos atravessados. Que somos vivos dentro do seu fluxo, inteiros e fragmentados ao mesmo tempo. É perceber que o tempo não se explica, não se doma, não se prende. É força, sopro, labirinto e corda tensa que nos sustenta e nos estrangula ao mesmo tempo.
E ainda assim, sobreviver é um ato de coragem: viver, sentir, criar — sem pedir licença, sem desculpas. Porque cada instante atravessado é uma alquimia secreta, uma redenção silenciosa, e cada respiração que o tempo toca é prova de que, apesar de sua impassibilidade, somos inteiros em sua corrente invisível.
Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 2026.