(Escrevi este texto num momento de muita tristeza, mas não o publiquei. Reencontrei-o hoje.)
Na mesa, o café esfria depressa — como se as notícias lhe roubassem o calor. Do lado de fora, o Rio acorda ferido mais uma vez. E a caneta do governador, em gesto brusco, assina a sentença de vidas que ele jamais verá de perto.
Chamam de operação. Chamam de estratégia. Chamam de “combate ao crime”. Mas o nome verdadeiro é outro: improviso travestido de autoridade, espetáculo de pólvora onde deveria existir planejamento e política pública.
Os helicópteros rasgaram o céu sem estudo, sem protocolo, sem pudor. Desceram balas como quem despeja números sobre uma planilha — números que depois se convertem em mortos, lágrimas, retratos na parede. O comando se diz firme; a História chama de desvario. O sofrimento, esse, prefere o silêncio.
Há quem aplauda, porque não viu o sangue na calçada, nem os gritos na madrugada. Há quem celebre o punho forte, porque nunca sentiu o peso de um Estado que mira primeiro e pensa depois.
E assim o café esfria.
E a cidade se acostuma.
E o horror se torna rotina.
Mas há sempre uma xícara que recusa o esquecimento: aquela que, por mais amarga, insiste em lembrar que a vida — sobretudo a vida alheia — não deveria ser jogada ao chão como casca de bala.
Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2025 - 4h26.