Há uma pressa no mundo. Uma pressa que não sabe esperar, que confunde resposta com verdade e solução com acerto. Quer tudo agora — e esquece que quase nada do que importa nasce assim.
A justiça não acompanha esse passo curto. Não anda no mesmo compasso dos calendários inquietos nem se submete à ansiedade coletiva. O tempo que lhe pertence é outro. Mais fundo. Menos visível.
A demora, nesse caso, não é falha. É escolha.
Enquanto os dias passam, algo se rearranja. Não no palco, mas abaixo da superfície. Como semente enterrada, o essencial trabalha longe dos olhos, protegido do ruído. O silêncio, ali, não é vazio — é ofício. Tudo o que aspira ao verdadeiro exige esse intervalo. Quando a verdade é apressada, perde densidade e se desfaz.
A impressão de ausência engana. O movimento acontece onde não se aplaude: no ajuste das causas, na correção lenta dos desvios, no reencontro das proporções. Nada é improvisado. O que parece esquecimento é, muitas vezes, maturação.
Quando a justiça se manifesta, não chega como espetáculo. Não vem para surpreender, mas para encaixar. O mundo não treme; apenas se recompõe. O excesso cai por si, o disfarce perde função, a medida retorna às coisas como algo que sempre lhes pertenceu.
Só então se entende: o tempo não foi perdido. Serviu para separar o que pesa do que sustenta. Para permitir que o eixo fosse reencontrado sem violência. Para que a verticalidade voltasse sem alarde.
A justiça chega ainda que tardia, porque o verdadeiro não desaparece; porque nenhum artifício se sustenta para sempre; porque todo desvio, cedo ou tarde, encontra o próprio limite.
A justiça chega sem anúncio.
Sem ruído.
E não pede que se acredite — apenas permanece.
Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2025 — 14h10