(Este texto repousava em meus arquivos. Trago-o agora à luz porque ainda diz — e talvez diga mais do que antes — sobre a forma como os erros de uma mulher são expostos, julgados e consumidos em praça pública.)
Aline Bardy Dutra — a Esquerdogata — errou. Não há mistério nisso. O erro, quando acontece na vida pública, costuma chamar atenção — e deve, porque a esfera pública exige, responsabilidade. Mas há erros que acendem um fósforo; este acendeu uma fogueira.
Vi pessoas que ontem pediam justiça e que, hoje, pedem sangue. Vi o debate ceder lugar ao espetáculo. E, no centro dele, uma mulher — não um símbolo, não um conceito, não uma ideia abstrata de “militância”. Uma mulher com história, carne, voz, vitórias, derrotas e cansaços.
Homens públicos erram todos os dias. Alguns declaram impropérios como quem respira; outros assinam ordens que ferem corpos reais; muitos caminham sobre cinzas que eles próprios provocaram. E, curiosamente, a esses homens se oferece sempre um longo corredor de desculpas, análises compreensivas e notas de rodapé.
A Aline não se ofereceu corredor nenhum. Apenas o cadafalso. Eu, mesma, a um primeiro impulso, reneguei tudo. Agora, penso melhor, embora ainda não esteja convencida se devo exarar perdão.
Há crimes que se julgam. Há atos que se corrigem. Mas há momentos — e este é um deles — em que a crítica se traveste de liturgia: a praça se organiza, o púlpito se ergue, os espectadores se acotovelam e aguardam o instante em que a cabeça cai. Não importa o nome anunciado. O ritual é sempre o mesmo.
E não é irrelevante que seja mulher. Que seja jovem. Que tenha sido — e isto incomoda profundamente — uma voz ativa da esquerda, uma voz que não pediu licença para existir. Porque há lugares onde até o progressismo guarda suas próprias tradições patriarcais: é permitido ser mulher, desde que discretamente; é permitido falar, desde que com delicadeza; é permitido ascender, desde que não se esqueça de agradecer. Uma mulher que fala alto demais é como um sino fora de horário: alguém deseja silenciá-la.
A direita costuma proteger seus culpados — guarda-os como troféus. A esquerda, quando se assusta com a crítica, às vezes pune os seus com zelo sacrificial. E o zelo, quando se converte em faca, não absolve ninguém — apenas sangra.
Não se trata, portanto, de dizer que Aline não errou — ela errou. Trata-se de perguntar o que estamos fazendo com esse erro, porque a dignidade da pessoa humana é fundamento da República (art. 1º, III) e a honra e a imagem não são bens negociáveis em praças públicas (art. 5º, V e X). Nada disso é poesia. É Constituição.
Mas hoje, mais que Constituição, vejo uma velha pulsão humana: o gosto pelo suplício. A arena muda, o público muda, o discurso muda — o instinto permanece.
Hoje, o alvo tem nome— Aline. Amanhã, terá o meu ou o seu.
E é por isso que importa dizer — mesmo quando dói: a democracia não cai apenas por golpes; cai também por aplausos. Aplausos ao apedrejamento. Aplausos ao linchamento moral. Aplausos ao sacrifício de uma pessoa para satisfazer a fome da multidão.
No fim, o episódio não revela quem é Aline. Revela quem estamos a caminho de ser.
Rio de Janeiro, 31 de outubro de 2025 - 9h03