Há palavras que não pedem licença para entrar no cotidiano — simplesmente se impõem. Killology é uma delas. Não nasceu para a conversa de esquina nem para a sala de aula infantil, mas circula. O termo — formado a partir de kill (matar) e do sufixo -ology (estudo, ciência) — designa um campo de investigação desenvolvido nos Estados Unidos, sobretudo a partir das pesquisas do psicólogo militar e policial Lt. Col. Dave Grossman. Trata-se de um esforço sistemático dedicado a compreender o comportamento humano em situações de confronto letal, com atenção especial aos mecanismos psicológicos, fisiológicos e morais que regulam — ou impedem — o ato de matar.
O ponto de partida dessa investigação é desconcertante e, ao mesmo tempo, profundamente humano: a maioria das pessoas apresenta resistência psicológica e moral em tirar a vida de outro ser humano. Não é o medo imediato que paralisa, ligado ao instinto de autopreservação, mas algo mais fundo — um freio interior ético, empático e cultural, incorporado ao longo da vida, que torna o gesto extremo difícil de atravessar.
É justamente aí que a killology se instala. Ela não nasce para celebrar a violência, mas para torná-la possível. Surge como um dispositivo teórico e prático destinado a contornar, neutralizar ou reconfigurar essa resistência. Para isso, recorre a técnicas de condicionamento psicológico, simulações de alta intensidade e treinamentos sob estresse extremo. Não se trata apenas de técnica; trata-se de linguagem. O outro deixa de ser semelhante e passa a ser ameaça funcional, inimigo necessário ou alvo legítimo.
Nesse processo, matar deixa de ser exceção trágica e passa a ser enquadrado por narrativas de missão, dever e normalidade operacional. A violência ganha contorno administrativo. É racionalizada, normatizada e progressivamente dessensibilizada.
Embora concebida no âmbito estrito das instituições militares e policiais, essa lógica não permanece confinada ao campo de batalha. Ela vaza. Transborda para o tecido social, manifestando-se em discursos públicos, práticas simbólicas e, de modo cada vez mais inquietante, em ritos pedagógicos.
Foi o que se viu recentemente em um colégio cívico-militar do Paraná. A cena não exigia interpretação sofisticada: crianças e adolescentes marchavam em fila, em cadência, entoando uma canção de exaltação explícita à violência policial. A letra cantada pelos estudantes dizia:
“Homem de preto, o que é que você faz?
Eu faço coisas que assusta o satanás.
Homem de preto, qual é sua missão?
Entrar na favela e deixar corpo no chão.
O Bope tem guerreiros que matam fogueteiros.
Com a faca entre os dentes, esfola eles inteiros.
Mata, esfola, usando sempre o seu fuzil.”
Não se trata de um detalhe periférico nem de um excesso retórico isolado. Marchar, cantar, repetir não são gestos neutros. São práticas de incorporação simbólica. Organizam afetos antes mesmo de formular ideias, moldam o imaginário e produzem disposições subjetivas duráveis. Nesse ritual, a violência é glorificada, o inimigo é previamente delimitado — o morador da favela — e o ato de matar é apresentado como missão honrosa, atributo de força e expressão de virtude.
O aspecto mais grave reside no espaço em que isso ocorre. Não estamos falando de adultos treinados para situações extremas, mas de sujeitos em formação. O que se observa é a transposição simbólica da racionalidade da killology para o ambiente escolar: a atenuação progressiva da resistência moral à violência letal em consciências ainda em constituição.
A pergunta que emerge não é apenas política. Ela se impõe como desconforto civilizatório. Que tipo de sociedade se projeta quando crianças aprendem a identificar inimigos internos antes mesmo de compreender a experiência da cidadania? O que acontece quando a linguagem da guerra antecede o aprendizado do comum?
Não se trata de ignorar os dilemas da segurança pública nem de desconsiderar a complexidade das instituições estatais. Trata-se de reconhecer limites. Há uma diferença substantiva entre preparar adultos para situações excepcionais e introduzir, no processo educativo, dispositivos simbólicos que corroem freios morais ainda em formação.
Quando a ciência que ensina a matar atravessa os muros da escola, já não se fala de civismo ou disciplina. Fala-se de um sintoma. Um sintoma grave de militarização do imaginário social — silencioso, cotidiano e profundamente revelador do tempo que habitamos.
Referência
1 Exposing Dave Grossman: the psychological cost of learning to kill in war and society. Disponível em: https://d3n8a8pro7vhmx.cloudfront.net/cuapb/pages/270/attachments/orThe Psychological Cost of Learning to Kill in War and Societyiginal/1593750257/Exposing_Dave_Grossman.pdf?1593750257).
Notas:
1- Sobre o estudo: On Killing Audiobook by Dave Grossman — Listen Instantly https://share.google/iFzCUb8aQrZGFznUI
2- Recursos em PDF podem ser encontrados em plataformas como o ResearchGate (artigos acadêmicos sobre assassinatos em combate) e sites comerciais como Perlego e Buku.io (que vendem o livro "Killology" de Gary Owen ou obras de Grossman).
3- Existem artigos acadêmicos que discutem as teorias e críticas de Grossman.
4- Livrarias legítimas oferecem PDFs, mas é preciso cuidado com versões não oficiais/pirateadas.
Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 2025.