Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Última janela

 

A cela 22B oferecia apenas uma única concessão ao mundo: o exíguo retalho de céu azul espremido acima do muro. O nauseabundo prisioneiro não divisava pássaros — apenas a breve sombra da liberdade que pareciam conduzir, como núncios alados entre o céu e o inferno. Todas as manhãs, antes de o sol inundar o pátio, o infeliz pousava a mão na parede gélida, com cheiro de desilusão. Não para sentir a rudeza da pedra, mas para confirmar, mais uma vez, a ausência da porta — esse limite simbólico que, para alguns, se revela no corpo; para outros, apenas no espírito.

 

Lá dentro, o tempo inútil mendigava novas emoções, mas frustrado pelas negativas, não avançava; pingava. E cada gota, ao bater no chão, ressoava como um oráculo misterioso, a sugerir que a verdadeira liberdade talvez não pertença ao reino dos muros e das chaves, mas ao plano mais sutil onde mito e consciência se acasalam.

 

Mas havia algo mais, que se insinuava entre essas gotas: o remorso — austero e antigo, quase sagrado. Não o remorso que busca desculpas, mas o que emerge quando a alma finalmente reconhece o preço exato dos seus atos. Era como se a voz do próprio tempo, em sua lenta liturgia, sucumbisse à seiva da vingança: “dessa forma se paga o que se fez para perder a liberdade.” E, ainda assim, aquele pedacinho de céu, distante e inalcançável, tornava-se um firmamento oculto no peito — pequeno na forma, grande no sentido — um lembrete silencioso de que o infinito pode caber até no mais estreito lampejo de azul. 

 

A cela não lhe devolvia o mundo, mas lhe oferecia o vislumbre de um axioma ancestral: basta, às vezes, um simples fragmento de céu para revelar toda a vastidão que não mais se pode tocar.

 

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz

Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2025 - 5h48

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 26/11/2025
Alterado em 28/11/2025
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