Ouço o silêncio do presente,
que ensurdece, em lentas profundezas,
o barulho clandestino do passado —
esse soturno eco subterrâneo,
trêmulo de reminiscências
que ainda ardem, tenazes,
sob o véu movediço do tempo.
Há uma coragem que não fala;
apenas repousa — leve, quase etérea —
sobre a memória indócil,
que persiste em pulsar ardente
nos recônditos da alma.
Revisito a fineza dos passos,
num processo íntimo e vigilante,
sob a última tentativa
de resgatar palavras, gestos,
olhares, beijos e sensações,
que a existência,
em sua gravidade austera,
guardou em gavetas invisíveis.
Toco em tudo o que doeu,
machuco o coração ao permitir
que se abra por inteiro
ao próprio estremecimento
e, enfim, respiro fundo,
na solitude de quem acolhe
o inverno derradeiro
antes de abrir as janelas
para a pureza inaugural
da primavera.
Então a consciência se ilumina:
mudar não é romper,
mas consentir que a alma
se mova com serena firmeza,
descortine outro rumo
e acenda, em si mesma,
a chama que a esculpe.
Às vezes, basta um instante
— um sopro de lucidez,
um silêncio que desperta —
para compreender
que seguir adiante
é o gesto mais íntimo
e mais puro
de liberdade.
Rio de Janeiro, 25 de novembro de 2025 - 9h15