Esta publicação refere-se, exclusivamente, à circulação recorrente, em grupos de WhatsApp e demais redes sociais, de um vídeo que afirma existir comprovação científica de que 73,9% das mortes analisadas em um grande estudo de autópsias teriam sido causadas por vacinas contra a Covid-19.
Trata-se tal alegação de informação enganosa ou verídica?
A seguir, apresenta-se o que foi apurado em fontes confiáveis e verificadas.
Notícia original
Em 2 de julho de 2025, o blogueiro de fitness Sandro Jibladze divulgou no Facebook um vídeo alegando haver evidência de associação entre vacinação contra a Covid-19 e mortalidade. A legenda afirmava: “O maior estudo de autópsias pós-vacinação mostrou que 73,9% das mortes súbitas foram causadas pela vacina.” Segundo a tradução do conteúdo, um estudo em larga escala, baseado em autópsias, teria concluído que 73,9% dos indivíduos vacinados analisados morreram em decorrência direta da vacinação.
O vídeo que permanece viral nas redes sociais data de 21 de maio de 2025 e registra uma audiência no Senado dos Estados Unidos acerca de supostos riscos das vacinas contra a Covid-19. Nesse material, o médico Dr. Peter McCullough comenta um estudo de autópsias e afirma que 73,9% das mortes examinadas foram causadas pela vacinação.
É provável que o Dr. McCullough se refira ao artigo “A Systematic Review of Autopsy Findings in Deaths After COVID-19 Vaccination”, publicado em novembro de 2024, do qual é coautor ao lado de outros oito pesquisadores. Esse estudo revisou trabalhos que seguiam metodologia semelhante e analisou 325 autópsias, concluindo haver alta probabilidade de relação causal entre as mortes e a vacinação em 240 casos (73,9%).
Segundo o artigo, a maioria dos óbitos incluídos no grupo adjudicado como “relacionado à vacina” envolvia parada cardíaca súbita, embolia pulmonar, infarto agudo do miocárdio, hemorragia cerebral e outras condições clínicas graves.
Em sua conclusão, os autores afirmam existir “forte vínculo causal” entre a vacinação e as mortes analisadas e recomendam novas investigações.
Ocorrências verdadeiras
De fato, existe um estudo denominado “A Systematic Review of Autopsy Findings in Deaths After COVID-19 Vaccination”, no qual os autores atribuem relação direta ou significativa com a vacinação em 240 dos 325 casos de autópsias revisadas.
Referência:
HULSCHER, Nicolas et al. A Systematic Review of Autopsy Findings in Deaths After COVID-19 Vaccination. Science, Public Health Policy and the Law.
Contudo, esse estudo foi posteriormente retirado (withdrawn) pela revista após questionamentos substanciais da comunidade científica sobre sua metodologia e suas conclusões.
A retirada do artigo das bases científicas
Publicado inicialmente em Forensic Science International, o estudo foi retraído pelos editores da revista. A justificativa da editora ressalta diversas preocupações técnicas e violações de critérios científicos fundamentais.
Entre os motivos da retratação, constam:
📌citação inadequada de fontes;
📌metodologia insuficiente ou inadequada;
📌erros e deturpações factuais;
📌conclusões sem respaldo no conjunto de evidências;
📌omissão de evidências relevantes que contradiziam a hipótese central.
Uma versão preliminar do estudo também chegou a ser disponibilizada no SSRN, plataforma vinculada ao grupo editorial The Lancet, mas igualmente foi removida devido a inconsistências metodológicas.
Comprovação da retratação:
https://doi.org/10.1016/j.forsciint.2024.112115
A decisão apoia-se na política editorial da Elsevier, que estabelece rigorosos princípios de integridade acadêmica e prevê retratação em casos de erros graves, distorções ou comprometimento da confiabilidade científica.
Política de retirada da Elsevier:
https://www.elsevier.com/about/policies/article-withdrawal
Antecedentes do Dr. Peter McCullough
Antes desse episódio, McCullough já havia promovido alegações infundadas sobre supostas ligações entre vacinação e mortalidade.
A plataforma georgiana Myth Detector consultou a organização de verificação científica Science Feedback, que publicou diversas análises críticas sobre o mesmo estudo.
Segundo os especialistas:
📌o estudo apresenta viés de seleção e baseia-se em análises frágeis;
📌diversos casos incluídos não atendiam aos critérios que justificariam sua classificação como “relacionados à vacina”;
📌estudos de caso individuais e amostras extremamente pequenas foram utilizados como base generalizável;
📌alguns artigos citados foram deturpados em sua interpretação original.
Embora miocardite seja um efeito adverso possível, ela é rara, geralmente leve, e também pode ocorrer após infecção pelo SARS-CoV-2, o que o estudo não contextualiza adequadamente.
Por que a alegação é enganosa?
1 — Retratação do estudo
A retirada formal compromete a validade e a integridade do trabalho científico. Um estudo retratado não pode ser utilizado como evidência confiável.
2 — Amostragem não representativa
O estudo revisou 325 autópsias selecionadas, e não uma amostra populacional. Portanto, não é possível extrapolar o percentual de 73,9% para a população geral.
3 — Correlação não implica causalidade
Atribuir relação temporal ou presença de achados patológicos não significa demonstrar causa direta. Diversos fatores clínicos preexistentes ou concomitantes não foram adequadamente considerados.
4 — Inexistência de respaldo epidemiológico
Se quase ¾ das mortes fossem causadas por vacinas, isso apareceria claramente nos grandes sistemas de vigilância sanitária e nas análises de mortalidade — o que não ocorre.
5 — Divergência em relação ao consenso científico
Órgãos como OMS, CDC, EMA e ANVISA mantêm vigilância rigorosa de eventos adversos. Os dados globais mostram que eventos graves relacionados às vacinas são raros e monitorados, sem indícios de mortalidade em massa.
Conclusão sobre o vídeo viral
A alegação apresentada no vídeo é falsa, ou no mínimo profundamente enganosa, quando tratada como fato comprovado.
O estudo que embasava a estatística de 73,9% foi retratado por sérias falhas metodológicas e falta de integridade científica.
Até o momento, não existe base sólida que fundamente a afirmação de que uma parcela tão elevada de mortes seja causada por vacinas contra a Covid-19.