Há delírios que não brotam do coração, mas de sua ausência. É o devaneio de quem trata a própria casa como brinquedo entregue a mãos estranhas — como se a nação fosse tabuleiro e os vivos, peças descartáveis. No palco ruidoso das redes, onde a ligeireza suplanta a responsabilidade, imagina-se que potências estrangeiras poderiam, num estalar de dedos, baixar dos céus e impor ordem sobre terra alheia — como se soberania fosse cortina a se abrir ao primeiro sopro de capricho.
A História — essa velha matriarca que não absolve a insensatez — presenciou outrora tal teatro. Assistiu a generais que proclamaram glória e colheram ruínas; registrou estadistas que imploraram tutela alheia, apenas para descobrir que quem convoca o lobo raramente retorna incólume da alcateia. Observou povos que, ao cederem sua dignidade a outras mãos, perderam não só o chão, mas o próprio fôlego.
O Brasil é mais amplo que as sombras da ignorância que, às vezes, pretendem encobri-lo. Suas cidades se erguem sobre séculos de lutas, dores e promessas; sua bandeira, embora por vezes sequestrada por retóricas menores, nasce do suor e do sangue que não pertencem a messias autoproclamados, muito menos a arautos de bravatas virtuais.
Imaginar que o destino da República possa ser decidido por soldados estrangeiros, convocados por herdeiros de dinastias improvisadas, é ofensa não à política, mas ao próprio solo. É cuspir na água que sustenta. É renegar o teto que acolhe — e, talvez, a própria ideia de pátria.
À primeira vista, pode parecer exagero. Uma frase ao vento, quem sabe. Mas palavras têm raízes — e certas raízes se alimentam da submissão voluntária, daquela nostalgia mórbida de chicotes, botas, quartéis e bandeiras alheias hasteadas sobre a alma.
E talvez seja essa a lição que o tempo, incansável, insiste em reiterar: quem suplica tutela externa não busca libertação — busca fuga. Fuga de si, da democracia, da responsabilidade adulta que é sustentar a própria casa.
E a História, sempre ela, responde com a firmeza que reserva aos que a subestimam:
os povos se fortalecem com suas quedas, mas desabam definitivamente quando se prostram ao estrangeiro por covardia, e não por grandeza.
No fundo, não se clama por intervenção. Clama-se por negação. Negação da maturidade republicana. Negação do país que sobrevivemos para construir. Negação de nós mesmos.
E se algo nos foi ensinado — nos escombros, nos porões, nos exílios — é que nenhuma potência estrangeira redime um povo dos tiranos que ele próprio tolera.
O Brasil é nosso — dos patriotas verdadeiros, daqueles que o constroem com trabalho, memória e coragem. E quem deseja entregá-lo ao vizinho abdica, antes de tudo, da própria denominação: brasileiro.
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro, 30 de outubro de 2025 - 9h18