Li, nas redes sociais, a exaltação de um indivíduo que afirma ser o Brasil um país de m..., porque não consegue comprar nem mesmo um carro zero no valor de R$80.000,00 — segundo ele, o carro zero mais barato do país.
Enquanto alguns se rebelam por não conseguir um carro zero, existe em mim uma alegria silenciosa em saber que o brasileiro pode colocar 1 kg de feijão na mesa por menos de R$5,00; 5 kg de arroz por menos de R$17,00; 1 kg de alcatra por menos de R$30,00; 1 kg de filé de peito de frango por menos de R$26,00; 1 kg de coxa com sobrecoxa de frango por menos de R$9,00; ou 1 kg de batata inglesa por menos de R$3,00 — e assim por diante. Esse referencial de preços é para marcas reconhecidas, de excelente qualidade, comercializadas em um supermercado vizinho do apartamento onde moro, considerado caro para o público de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Desejo que o preço desses e de muitos outros alimentos abaixe ainda mais, para que se incorporem diariamente à mesa dos brasileiros, porque é nesse cotidiano simples que se mede o verdadeiro valor da vida.
Não ridicularizo nem renego as ambições por bens materiais. Pelo contrário, considero legítimo e gratificante o trabalho que permite o uso de uma roupa de grife famosa, desfrutar as delícias de um restaurante caro, percorrer com garbo as ruas da Cidade Maravilhosa ao volante de um carro de luxo e abrir as portas de um apartamento glamouroso para receber amigos e amigas.
Mas há também, dentro do meu peito, um coração voltado para o coletivo, a tal ponto que, mais do que bens de luxo individuais, importam-me as necessidades essenciais: a segurança de um alimento e a tranquilidade de uma família alimentada. Valorizar isso é reconhecer que a igualdade social, as políticas públicas e a justa distribuição de riquezas sustentam o corpo e a alma de um povo.
Há uma beleza discreta em pequenas conquistas que beneficiam a muitos — e nelas se revela a consciência de que um país voltado para o bem viver não se mede por carros ou status de uma pequena parcela do povo, mas por dignidade e sustento garantidos a todos.
Se as dificuldades sociais, nacionais ou mesmo mundiais não me afetam absolutamente nada, não sou uma cidadã brasileira; não sou uma cidadã do mundo.
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro, 24 de outubro de 2025 - 12h10