Não é de hoje que o Carnaval, esse ritual de resistência e invenção, convive com a tensão entre o chão da comunidade e o palco da indústria. No miolo dessa disputa está a figura da rainha de bateria — que deveria ser símbolo de pertencimento, mas vem sendo cada vez mais tratada como vitrine de mercado.
Evelyn Bastos, soberana da Mangueira, resumiu em uma frase o que muitos tentam silenciar: “coroa de ancestralidade não cabe no bolso do privilégio.” É verdade desconcertante, pois não há fortuna que compre a memória de um povo que fundiu tambores e sangue para parir o samba.
A indústria do espetáculo, no entanto, insiste em confundir brilho com essência. Importa menos a trajetória no terreiro, no ensaio, na quadra; importa mais o número de seguidores, os contratos publicitários, o peso do sobrenome. Querem coroar celebridades como se fossem produtos de prateleira, ignorando que a coroa, no samba, não é acessório de luxo — é herança espiritual.
Mordaz ironia: em nome da “modernidade”, entregam o coração da bateria a quem desconhece o compasso que sustenta a avenida. É como se permitissem a um turista inaugurar uma missa barroca em Ouro Preto apenas porque sabe posar para fotos.
O Carnaval não é cenário alugado. É corpo coletivo. É rito em que a favela se inscreve na história a golpes de tamborim e resistência. Transformar esse espaço em passarela de privilégio é profanar a ancestralidade que deu origem à festa.
E aqui está a ferida: não é contra a entrada de quem vem de fora — todos são bem-vindos ao samba. Mas ocupar o centro sem raízes é fraude simbólica. É o mesmo que colher a flor e cuspir na terra que a alimenta.
A fala de Evelyn é incômoda porque arranca a máscara: lembra-nos de que a coroa que reluz na avenida não é metal dourado, mas cicatriz luminosa de quem manteve viva a chama do tambor quando tudo conspirava pelo silêncio.
E essa coroa, por mais que tentem, jamais caberá no bolso do privilégio.
Rio de Janeiro, 1º de outubro de 2025.