O clarim rasga o ar — o mundo suspira,
no círculo de pó o tempo vacila.
O sol-juiz pesa em brasa candente
homem e fera — espelhos da força.
No instante solfejam instintos distintos,
na mesma arena, o mesmo abismo.
Ergue-se o toureiro — centauro em febre,
a coragem lhe veste e o medo reveste.
Promessa e sina no corpo suado
e o touro arqueia — músculo em fúria.
Há olhos de terra doída na alma ferida,
no espaço fatal, nada consente o jugo.
O portão ressona em fúria — nasce o abismo,
o couro range e arde o vermelho do manto.
O sangue apunhala sonho e tortura
e se o bicho quer vida — há homem poder.
Por um sopro que louva o eterno,
recende o duelo na dor, contra o limite.
O público grita — o pó incendeia,
há arte ou suplício nos olhos diversos.
O aplauso ressoa num eco de dor
e são breves minutos — glória e ruína.
Há beleza no horror e o inverso é real,
na alma que treme, há tempo que cala.
Zomba o matador — o touro pára,
a terra respira, juíza calada.
A glória se esvai e o pó mal repousa
sem herói ou fera — apenas carniça.
O salto finda no sonho que estala
e a vaidade pesa, invisível...
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2025 - 8h55