No Brasil, as crianças sonham entre escolas multicolores, risos que ecoam como sinfonias nos pátios e o aroma adocicado da merenda que perfuma a memória da infância. Correm, saltitam, aprendem canções, cultivam a crença de que o mundo é um abrigo capaz de protegê-las. Contudo, há também aquelas que brincam entre becos sombrios e temores silenciosos, que adormecem com fome, que se tornam adultas precocemente, antes mesmo de compreender a vastidão da vida. Há crianças que entoam a letra do hino nacional antes de apreender o sabor da esperança; outras, que assimilam o instinto de autoproteção antes de decifrar os signos da liberdade.
Mesmo neste chão onde a paz se anuncia como promessa e o futuro deveria ser um direito inalienável, nem todas as infâncias são resguardadas. E essa constatação, dura e cotidiana, nos impele a contemplar horizontes distantes, para territórios onde a infância é dilacerada, consumida pelo estrépito da guerra.
É impossível não evocar as crianças de Gaza — caminhantes doloridos, entre ruínas que outrora foram lares, escolas e quintais. Uma infância que conhece apenas o eco lancinante das bombas, o pó que recobre brinquedos esquecidos, o medo que cristaliza o corpo antes do tempo. Crianças que carregam sacolas vazias ou abarrotadas de sonhos truncados, sobreviventes de um mundo que as ignora.
Não escolheram a guerra.
Não empunham armas.
Não ditam decretos de morte.
Ainda assim, são atingidas por retaliações indiscriminadas, enquanto o socorro e a proteção prometidos pelo mundo se revelam, tantas vezes, ilusórios e tardios.
Moralmente, cada vida perdida ressoa como clamor contra a consciência da humanidade. Juridicamente, não há equívoco: atacar civis, negligenciar a proporcionalidade ou desprezar a precaução constitui crime flagrante. A responsabilidade recai sobre quem dispara, planeja ou comanda — jamais sobre aqueles que apenas nasceram no epicentro do conflito.
A realidade é brutal.
A poesia sonha, mas isolada não basta.
Denunciar, pressionar, fomentar a ajuda humanitária, manter acesa a consciência ética — essas são formas de agir, ainda que o mundo tarde em corresponder.
Sim, a realidade é brutal. Mas, ainda assim, Gaza nos ensina que mesmo imersas no terror, as crianças permanecem essencialmente crianças. E a humanidade inteira deve responder por elas, nunca contra elas.
Que o Dia das Crianças nos recorde de todas as infâncias do mundo — das que vivem em paz às que sobrevivem em meio ao medo. Que nenhuma criança tenha sua alegria usurpada pela fome, pela violência ou pela guerra. E que o simples direito de sonhar retorne, em qualquer latitude, como o primeiro, supremo e inalienável direito de ser criança.
Que cesse realmente o estrondo das armas, que os horrores da guerra encontrem o seu fim — e que o silêncio que resta seja o prenúncio da paz.
Sílvia Mota, a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Rio de Janeiro, 12 de outubro de 2025 - 20h20