A felicidade não se anuncia —
seria maculada e idiotizada,
se chegasse ao som dos clarins,
pois é filha do silêncio e da penumbra.
Vive nas frestas —
entre o desejo e o pudor,
entre o medo de ser vista
e a urgência de existir.
É vertigem profana
que se espraia na praia
aos beijos escancarados
de uma filosofia morta.
É segredo antigo
que o corpo pressente,
humano e eterno,
entre silêncio e grito.
É feixe de luz apagada,
cambiante e linda,
que se esvai em orgasmos,
mas não confessa.
Às vezes, descabelada,
desperta no meio da angústia,
como flor amarrotada
que desobedece o inverno.
Outras vezes, enlanguecida
e firme no batom vermelho,
apenas observa candente
o dom da minha rendição etérea.
Não se oferece — espera,
pois sabe que pelas trilhas do inferno
só consegue habitar o céu
quem aprendeu o valor do silêncio.
E quando, por descuido,
sou inteira em um só instante,
a felicidade vem — não para ficar,
mas para provar ofegante,
que ainda é possível.
Rio de Janeiro, 4 de outubro de 2025 - 21h05
Sílvia Mota — a Poeta e Escritora do Amor e da Paz