Há mar em Gaza —
azul de vastidão mediterrânea,
antigo como os deuses
que assistiram, impactados,
ao nascimento da História.
Mar que contempla ruínas,
que se curva às cicatrizes,
mas persiste em existir.
Há mar em Gaza —
mas seu espelhado corpo
não leva a liberdade,
apenas devolve, no silêncio,
os escombros das casas,
os brinquedos partidos
e os corpos retalhados
dos que ousaram respirar.
Há mar em Gaza —
mas esse mar dolente,
que deveria ser travessia,
é fronteira armada
de peixes confinados,
homens cerceados
e barcos detidos
antes do horizonte.
No entanto e apesar de tudo,
o mar insiste em ser mar,
canta sua música líquida
sobre areia de sangue
e murmura, nas marés,
que "nenhum muro é eterno".
Sussurra memórias antigas
para acalentar esperanças.
Há mar em Gaza —
e nesse mar confuso
de cabeleira ondulada,
a esperança distraída
se oculta como pérola,
à espera da mão afetuosa
que a resgate incólume
do lodo da barbárie.
Porque o Mediterrâneo sabe:
as águas que registram a dor,
também guardam a promessa,
trazem em si a memória
de naufrágios e renascimentos,
de batalhas e cânticos,
de histórias que não se calam,
de vidas que insistem em ser mar.
Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2025 - 21h