Nos corredores sombrios do DEOPS, o nome de José Paulo Bonchristiano era sussurrado como ameaça. Delegado da polícia política, não fazia perguntas: infligia tormentos. O interrogatório, em suas mãos, não era diálogo, mas suplício.
Entre choques, pau-de-arara e espancamentos, Bonchristiano encarnava o papel de inquisidor moderno, servindo a um Estado que trocou a justiça pelo terror. Os gritos que ecoavam em suas salas não eram desvios: eram parte de um ritual planejado para esmagar corpos e calar consciências.
Sua frieza era método. Suas sessões de tortura eram lições cruéis de como o poder pode se transformar em barbárie quando a lei se dobra à força. Sobreviventes lembram não apenas da dor física, mas da humilhação calculada, da tentativa de reduzir o ser humano a silêncio e medo.
Protegido pela anistia, Bonchristiano jamais enfrentou julgamento. Carregou consigo a impunidade que marcou tantos algozes da ditadura, como se a sombra pudesse engolir para sempre a verdade.
Mas a memória resiste. Dizer seu nome é reabrir a ferida, não para perpetuar a dor, mas para impedir o esquecimento. Porque um país que esquece seus inquisidores corre o risco de revê-los, travestidos de ordem, a ditar novamente o suplício.
Rio de Janeito, 13 de setembro de 2025.