Entre a espada e a lira,
sou voz e poesia.
Sigo no espetáculo da vida,
solene e contemplativa,
vértice de um triângulo invisível,
onde o destino juiz
ergue sua geometria severa
e o acaso travesso
risca rabiscos de criança
na cartografia do tempo.
Entre ambos, caminho eu
— frágil e soberba criatura —
ponte entre dois abismos:
um mapa gravado
em pedra perpétua
e um dado obscuro
lançado ao vento.
Sou carne em ebulição
congelada na memória...
sopro de eternidade morta
exilado no instante...
naufrágio fogoso que insiste
em asfixiar o céu...
Entre a espada e a lira,
sou voz e poesia.
Intensa e conflituosa,
afronto o destino impassível,
que me lança olhos de granito,
pois sabe que todo rio
desemboca no mar da morte.
No mesmo momento,
o acaso ri sobranceiro,
solta pedras nas corredeiras,
inventa pontes etéreas,
abre flores multicoloridas
entre rachaduras do asfalto.
Reveladora e celebratória,
ergo-me no interstício
entre as forças vaidosas,
e, faço da incerteza, minha lira,
do inevitável, minha espada,
do improvável, meu canto.
Se o destino me cerca,
eu o desafio com sonhos.
Se o acaso me provoca,
danço no seu abismo.
E, quando ambos
me julgam perdida,
(re)descubro em mim
a alquimia de ser
— senhora e serva —
do próprio enigma.
Entre a espada e a lira,
sou voz e poesia.
Rio de Janeiro, 25 de agosto de 2025 - 22h52