O mito do mercado que se autorregula
De tempos em tempos, alguém repete o velho discurso: “o livre mercado se autorregula”. A frase soa bonita, quase natural, como o curso de um rio que se ajusta ao leito, mas, na prática, é um mito embalado por quem lucra com a ingenuidade alheia.
A história não deixa margem à fantasia. O mercado, sozinho, nunca se preocupou com justiça social. Seu motor é o capital — e sem regulação, a engrenagem gira em favor dos mais fortes. O resultado não é liberdade, mas monopólio. Não é prosperidade, mas concentração de riqueza. E, para os de baixo, restam: exploração, miséria e invisibilidade.
O exemplo mais brutal é a escravidão. Durante séculos, o comércio de seres humanos foi tratado como transação legítima, parte do “livre mercado”. Senhores acumulavam fortunas, intermediários prosperavam e milhões eram reduzidos à condição de mercadoria. Era a tal “autorregulação”: a liberdade dos senhores de manter o cativeiro eterno.
O Estado só interveio quando não havia mais como sustentar a vergonha diante da pressão social e internacional. E não foi porque os poderosos tiveram um surto de compaixão. Se o mercado se autorregulasse em favor da justiça, a escravidão teria se dissolvido sozinha, pela boa vontade dos senhores. Isso não ocorreu. Foi preciso luta, resistência, sangue, e, sobretudo, leis para quebrar a engrenagem da exploração.
O mito do mercado que se ajusta como a água corrente resiste até hoje, mas, convém lembrar: sem Estado, sem regulação e sem limites, o que se instala não é a liberdade. É a selva — e nela, os mais fortes não apenas sobrevivem, devoram.