Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Meu Eu-poético sente saudades de algo eterno, do qual não se consegue lembrar... (Sílvia Mota)
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Desejo mundano pode ou não ser fonte de iluminação


Antes de analisar a afirmação proposta, é necessário delimitar o sentido dos termos envolvidos.


Por “mundano” compreendem-se todas as situações do mundo material e socialmente considerado que instigam convenções, futilidades e a busca por prazeres imediatos. Nesse sentido, são mundanas as condutas que ignoram valores éticos e morais em favor da ostentação frívola e passageira dos bens materiais, bem como as pessoas que se consagram exclusivamente a tais prazeres.


Por sua vez, alcançar a iluminação significa despertar para a verdadeira natureza da vida, percebendo que cada ser humano possui a capacidade de manifestá-la aqui e agora, em meio à realidade concreta da existência.


Postas essas definições, surge a indagação central: para viver com dignidade, deve-se afastar das pessoas que cultivam o Mal e a maledicência e fugir dos pensamentos mundanos? E, se assim for, de que maneira isso seria possível?


O ser humano trafega por diversos mundos. Por vezes, desenha o luar como se fosse um dragão monstruoso a expelir sanha pelas ventas; em outras, colore a perdição como se fosse pureza divina. Tudo isso decorre da dificuldade de enxergar a própria sobrancelha — tão próxima dos olhos — sem o auxílio de um espelho. Trata-se da incapacidade recorrente de reconhecer a si mesmo e de manter o equilíbrio entre os estados mentais inerentes à vida: Inferno, Fome, Animalidade, Ira, Tranquilidade, Alegria, Erudição, Absorção, Bodhisattva e Iluminação, este último reconhecido há milênios como o Estado de Buda.


Apesar dessas incongruências, viver é inevitável — e viver é coexistir. Contudo, como alcançar esse feito se é tão difícil reconhecer o Outro em sua individualidade? E mais ainda: como conhecer a si mesmo quando os interesses próprios estão em jogo?


Não existe meio termo ao desbravar o Outro. Essa experiência pode revelar o lado solidário, amoroso e saudável do ser humano, mas também pode representar perigo. Não porque necessariamente contamine, mas porque há quem seja afeito à destruição do que se constrói em nome do Amor e da Paz.


Ainda assim, não se impõe a fuga do mundo nem o seu abandono. O desafio reside em transformar a vida cotidiana em palco de sabedoria, coragem e compaixão. Alcançar a iluminação significa manifestar a mais alta dignidade da vida, mesmo no sofrimento ou em circunstâncias adversas.


Para sobreviver ao Mal, é preciso conter a força interior de mil gigantes mitológicos e cultivar a verdade como ideal máximo nas ações diárias. Quando, porém, o espírito se mostra inapto para sustentar tamanho esforço, melhor é não se aventurar por mundos desconhecidos antes de fortalecer os próprios mundos interiores.


Por nada saber plenamente, cabe ao ser humano buscar ao menos um conhecimento mínimo sobre as coisas e as pessoas que o cercam. Nesse contexto, as aparências pouco valem, assim como os discursos falaciosos desprovidos de fundamento. Os prazeres, quando colocados ao alcance do coração, não devem prescindir da razão, ainda que mínima seja a parcela exigida.


Muitas vezes adentra-se mundos estranhos; muitas vezes sofre-se por essa audácia; outras tantas, o sorriso brota seguro, fruto da coragem desafiadora. O que não se pode ignorar, porém, é que, alegres ou tristes, constitui erro grave subestimar o Outro antes de compreender as verdades que se ocultam por trás de palavras motivadas pela maldade intencional ou proferidas sob o peso de circunstâncias adversas. Fugir do Mal não garante o Bem. Melhor é fortalecer o Bem que existe em si, para que se vença o Mal do Outro — ou, ao menos, para que se mantenha o equilíbrio.


É impossível sair ileso de um mundo. Marcas, positivas ou negativas, sempre se inscrevem, pois alegrias e tristezas são fatos inerentes à vida. Que as alegrias possam ser revisitadas e que as tristezas não se perpetuem, mas sirvam à evolução de cada um.


As situações e os seres mundanos não devem ser temidos, pois é impossível desvencilhar-se completamente dessa realidade. Afortunados são aqueles que, munidos de discernimento, conseguem atravessar tais iniquidades; sucumbem os que se deixam vencer pelos obstáculos. Há ainda os que se lambuzam do Mal para, depois, desafiá-lo e vencê-lo. Também estes podem ser considerados vitoriosos, embora carreguem com maior intensidade as marcas de um sofrimento que poderia ter sido evitado.


São esses que, por vezes, sacrificam-se ao Mal para evidenciar o Bem. Daí decorre a conclusão: os desejos mundanos podem, sim, tornar-se fontes para a iluminação, desde que transmutados pela consciência, pelo discernimento e pela responsabilidade ética.


A cada qual, o seu destino. A cada qual, o desejo — ou não — de vencer as vicissitudes que esse destino impõe.

 

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz

Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 2011 - 16h19

 

Nota:

Em 29 de dezembro de 2025 - 8h47, perpetrei a reorganização estrutural do texto, sem alterar o conteúdo essencial, o pensamento nem a conclusão, apenas ordenando o percurso argumentativo, ajustando transições e concentrando as vozes num ensaio reflexivo coeso.

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
Enviado por Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz em 19/01/2014
Alterado em 29/12/2025
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